quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

histórias de Rosa Branca


XX

Jordão recordou-se então daquela noite em que o céu se inclementava perante os mortais.
Viu-se a si próprio sentado na antiga mesa de madeira, olhando com uma atenção fingida o velho documento que o avô lhe tinha entregado há já tantos anos. Via-o outra vez, já perdera a conta às vezes que para ele tinha olhado, lido e relido, visto por fora e por dentro, descodificado e tornado a baralhar num amontoado de dúvidas, de incertezas, de avanços e recuos que nunca lhe deram qualquer verdade.
Jordão recuou àquela noite em que o céu estava mais escuro que o habitual, em que um vento ensurdecedor levantava tudo o que não tivesse raízes, àquela noite em que ninguém se atrevia a sair, em que todas as luzes, de todas as casas, se encontravam apagadas, porque ninguém ousava desafiar a raiva que alguém tinha lançado sobre a pequena povoação.
Jordão tinha bem presente o som que ouviu junto da porta de sua casa e de como percebeu, imediatamente, que não era o vento, ou a chuva que o provocavam.
Quando, a medo, resolveu finalmente abrir a porta, viu no degrau mais alto duas pétalas de rosa, uma branca e uma vermelha, entrelaçadas e, no meio daquele breu impenetrável, a luz surgiu-lhe como por milagre e ele entendeu o que tinha que fazer.

(continuará)

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