terça-feira, 30 de março de 2010

Até que 31 de Maio chegue... (IX)

Mais uma divertida canção, que eu e os meus filhos, costumamos cantar em conjunto.

segunda-feira, 29 de março de 2010

(...) - 15

(...)Sinto movimento lá fora. Percebo que ela se levanta e ouço os seus passos a afastarem-se.
Estranho. Não pode estar a acontecer.
Espreito pelo olho mágico.
Ela está à porta do elevador. Vai-se embora!
Os meus olhos enchem-se de lágrimas e a figura dela, ao longe, parece desvanecer-se como o fade out de um filme a preto e branco, dos antigos. Melodrama de fim trágico.
Como aqueles que sempre me magoaram o coração, mas que nunca consegui deixar de ver. Os que me faziam chorar como se não houvesse salvação possível. Mas que eram, por outro lado, redentores. A mim que, afinal, nunca gostei de finais tristes.

O elevador parou e a porta abriu-se.
Ela olha para a minha porta e acena-me. Será um adeus?
Não pode ser. Ela nunca diz adeus.
No entanto entra no elevador. As portas fecham-se.
Corro à janela. A minha respiração ofegante embacia o vidro à minha frente.
(...)

All Star (3)

sábado, 27 de março de 2010

Nervoso Miudinho


Já há muitos anos que não me lembrava de estar com este nervoso miudinho antes dum jogo do Glorioso.
Espero conseguir relaxar bem, mais logo!

adenda: estou bem mais relaxado, agora!

sexta-feira, 26 de março de 2010

Adventures of Tintin



Se o Tintin fosse americano, muito provavelmente seria assim.
Por isso me assusta tanto aquilo que o Spielberg anda a preparar.

(...) - 14

(...)E os pais, que eram uma chatice ainda maior.
Tudo o que interessava se passava naqueles instantes em que a música soava. Era aí que tudo se definia. O futuro. E esse acabava logo ali, no fim daqueles minutos que uma canção durava. Pelo menos até começar a próxima. O quarto era todo o mundo que conhecia. E bastava-me.
Nas suas paredes pendiam os rostos e as imagens que a música oferecia e sugeria e por aí, todas as loucuras, mesmo as mais inconfessáveis, eram permitidas.
Mesmo hoje, neste preciso instante em que me encontro sentado junto à porta da rua, com ela do outro lado, me apercebo que a música permanece como a bóia de salvação da minha alma.
Em fundo, a minha música continua a soar.
A banda sonora da minha vida.
Ao mesmo tempo que a chuva continua a fustigar os vidros da janela.
(...)

All Star (2)

Graças a Deus é sexta feira

Vamos lá então amar (n)o fim de semana,

quinta-feira, 25 de março de 2010

Futebol de fugir


Não quero discutir a justiça dos castigos aplicados aos jogadores do fóculporto pela Liga, nem sequer a sua redução inventada agora pela FPF. O que quero discutir é a falta de vergonha, a impunidade ranhosa e mal cheirosa, a provocação descarada e nojenta, que ressalta destas duas decisões, ou melhor, da incoincidência destes dois julgamentos e também do intervalo de tempo que mediou entre uma e outra.
Será que estes senhores não têm a noção que, desta forma, só tornam o futebol em Portugal ainda mais incredibilizado? Não percebem que os compadrios são tão evidentemente escancarados que só um cego hereditário não os consegue ver?
É para mim óbvio que, no meio de toda esta porcaria, ninguém sai limpo, por isso, deixem jogar quem sabe e pode e deixem de alimentar guerrilhas estúpidas e repulsivas que só aproveitam o tão mal afamado sistema, sistema que mais não é que a vassalagem que vai rodeando os velhos sebosos que teimam em manter-se à frente daqueles clubes que são useiros em embustes destes.
Por muito que me custe admitir, parece-me que a podridão está de tal modo instalada que pouco podemos fazer para a erradicar, por isso, e correndo o risco de também me sujar, deixo aqui um desejo muito sincero.
Pelo menos que o Glorioso consiga ganhar esta merda!

All Star (1)


Começamos hoje a visitar os melhores ténis do mundo.
Converse Chuck Taylor All Star.

Les Années Spoutnik


É nessa altura que vemos a lua nas nossas mãos, que mudamos o mundo todos os dias, porque ele está à nossa mercê, que choramos e rimos a toda a hora, porque é assim a nossa vontade.
É nessa altura que voamos e caímos sem nunca recuarmos, porque só nessa altura é que sabemos onde estamos verdadeiramente.
Tudo é mais intenso, tudo é mais forte e belo, porque cada dia é uma descoberta maior, uma infinidade de horas para assaltarmos.
Não há fronteiras entre mundos, não há barreiras entre as pessoas, porque só nessa altura é que sabemos que a felicidade não depende do que nos derem, mas sim daquilo que oferecemos.
É isso que Baru nos mostra nas suas histórias ternas de uma infância talvez ainda não perdida, pelo menos para aqueles que continuam a olhar a vida através do coração.

Até que 31 de Maio chegue... (VIII)

Uma comovente versão acústica de uma das mais belas canções de Neil The Divine Comedy Hannon. Um romance belo e triste em poucas, mas tocantes palavras.
Soberbo.

(...) - 13

(...)Porque nessa altura eu já conseguia abrir os livros e atrevia-me a lê-los.
Esses foram os primeiros que abri. Os contos de fadas.
Andersen, Perrault, os irmãos Grimm. Histórias povoadas de seres imaginários, incríveis, mágicos, únicos, naquelas paisagens com que eu sonhava e que, apesar de nunca as ter visto, conhecia como ninguém.
E como viajava então.
No dorso de cavalos alados. Batalhando dragões de todas as cores. Magicando mil e uma maravilhas em reinos perdidos por entre as páginas de livros queridos.
Nunca depois disso os livros me souberam tão bem. Nunca mais os sonhos foram tão profusamente ilustrados.
Mesmo quando decidi viver com a música. Não era, pensava eu, diferente de qualquer outro adolescente. Pelo menos daqueles para quem a música tem uma única finalidade. Salvá-los!
Era assim que a entendia. Era por isso que a ouvia e vivia tão intensamente. A música era a única coisa que me podia salvar. Apesar de, na verdade, nunca perceber bem de quê. Naquela altura as perguntas mais comezinhas estavam arredadas de todo o pensamento. A vida não esperava que fossemos metódicos. Para isso havia a escola que, tal como seria de esperar, era uma chatice.
(...)

quarta-feira, 24 de março de 2010

Coisas (que importam)!

Até que 31 de Maio chegue... (VII)

Eis Lucy, nas palavras de Wordsworth e na, sempre, bela música dos Divine Comedy.

Quo Vadis Portugal?

Será que neste país nada mais acontece para além dos ataques, contra ataques e defesas, mais ou menos atabalhoadas, contra e a favor de José Sócrates e a incerteza quanto à capacidade do Benfica em concretizar o sonho de tanta gente?

(...) - 12

(...)Estiquei as pernas. Percebi que, no lado de fora, ela tinha feito o mesmo. Parecíamos miméticos. Feitos um para o outro. Porque não? Pensei. De facto nunca tinha pensado nisso.
Ela ali estava, por mim, para mim. Eu não. Seria demasiado egoísmo? Era filho único, que é um outro nome para egoísta.
De repente o céu tornou-se mais escuro. Uma breve, mas forte, luminosidade acendeu-se. Logo depois surgiu o trovão. Forte e poderoso.
A casa estremeceu. Eu também. Lá fora ela também.
Nas noites de trovoada mal conseguia dormir. Não porque tivesse medo. Não tinha.
Ficava maravilhado. Com o poder dos trovões, com a atracção pelos relâmpagos. Com a vertiginosa capacidade natural em criar um espectáculo daquela dimensão. Tão belo. O mais bonito espectáculo do mundo.
E deixava-me ficar a admirar todo o esplendor da trovoada. Aquelas noites eram belas e poderosas.
Uma feiticeira única. Senhora do mundo. Dona de uma fantasia única. Aquela fantasia que vivia dentro dos contos de fadas de que eu tanto gostava.
(...)

terça-feira, 23 de março de 2010

Até que 31 de Maio chegue... (VI)

E aqui vai mais outra, dedicada à sua filha e que eu, como pai galináceo que me prezo de ser, adoro.

(...) - 11

(...)Estendiam umas mantas no chão terroso e abriam umas caixas de madeira onde traziam talheres e pratos, copos e garrafas. Depois abriam outras caixas de onde saiam croquetes, rissóis e até um arroz de cabidela que vinha num termo para ficar quentinho.
E havia uma garrafa de vinho e outra de laranjada. BB era a marca, lembro-me bem. Bem Boa! E isso já não me lembro se era, eu bebia água.
Depois da sesta, à beira da estrada, lá seguíamos viagem. Rumo à aldeia de pedra, que era pobrezinha, mas bonita, e onde familiares me inundavam de beijos molhados, com hálitos de velhos de séculos e onde as casas de pedra eram mais frias que todos os invernos que eu conhecera.
Foi há tanto tempo. Apesar de tudo tinham sido agradáveis aquelas viagens e aqueles velhos sorridentes e baços que, afinal, hoje já não existem. Velhos como aqueles perderam-se no tempo. Hoje os velhos ficam em frente aos aparelhos de televisão, trocando os tempos que ainda têm, por visões de programas estupidificantes que lhes prometem horas de entretenimento, mas que lhes tiram a vida aos poucos. Alzheimers em directo e a cores.
(...)

segunda-feira, 22 de março de 2010

Até que 31 de Maio chegue... (V)

Aqui vai mais uma:

(...) - 10

(...)Lá fora a chuva continua a cair, agora mais miudinha, mas imparável.
Olho os vidros da janela e deixo que o meu olhar percorra os trilhos que as gotas vão desenhando ao deslizarem pelo vidro.
Era assim um jogo que costumava jogar quando, no banco de trás do carro de meu pai, íamos à terra. Não à minha terra, nem sequer à dele, que era a mesma que a minha, mas à dos seus pais. Que ficava lá longe, depois dos montes, dos vales, dos rios e riachos, das curvas e contracurvas, num outro mundo, longe da nossa cidade, longe daquele mundo que eu julgava nosso.
Demorávamos horas intermináveis para lá chegar.
As estradas eram estreitas, tinham buracos, desvios, curvas e mais curvas. Mas eram caminhos bonitos, com árvores a bordejá-los. Às vezes, quando a luz era pouca, podíamos ver um coelho a saltar, até uma raposa fugidia e o meu pai parava o carro e dizia, Viste? E eu olhava e dizia que sim, mesmo que não tivesse visto nada, porque sabia que lhe agrada. Animais selvagens que fugiam à frente do carro, assustados por aquele ronco surdo que os carros tinham naquela altura.
E parávamos depois à beira da estrada. Num espaço diminuto, onde cabíamos apertados uns contra os outros e contra o carro que nos protegia dos outros que por ali podiam passar, mas que nunca passavam.
E fazíamos aquilo que eles gostavam de chamar o piquenique.
(...)

domingo, 21 de março de 2010

Onda vermelha


Sabe sempre muito bem dar três à tripalhada, mas o que importa mesmo é ganhar o próximo!

sexta-feira, 19 de março de 2010

Graças a Deus é sexta feira

Vamos lá então animar este fim de semana:

(...) - 9

(...)Lá fora a sirene duma ambulância soa estridente. Alguém aflito, penso. Um pai, uma mãe, um irmão de alguém.
Eu nunca tive irmãos. Passei uma infância sozinha. Sempre à espera que chegasse um irmão. A quem pudesse queixar-me. Com quem pudesse partilhar uns risos, umas bolachas, um pouco de televisão. Uns tabefes, até.
Mas ele nunca chegou. Faltam-me irmãos.
Dizem-me, alguns que os têm, que não fazem falta. São empecilhos, partilhas forçadas. Carne da mesma carne, sangue do mesmo sangue, mas interesses de outros interesses. Não interessam.
Não sei se hei-de acreditar. Ainda hoje, quando sei que nenhum irmão irá chegar, fico sentado à espera que chegue. Que me diga Olá sou o teu irmão, vamos brincar?
Sentado horas a fio, à espera que isso aconteça.
Tal como estou sentado agora. Mas agora não sei o que espero. Nem desespero.
Ela também não. Sinto-a sossegada do lado de fora. Tão sossegada que parece dormir. Mas eu sei que não está.
Ao mínimo ruído todos os seus sentidos despertam. Viajam por onde for necessário para que eu não fique sem ajuda.
Eu, que nem a mim próprio consigo ajudar.

quinta-feira, 18 de março de 2010

A Europa (também) é vermelha

Voltaram as grandes noites europeias!

quarta-feira, 17 de março de 2010

Pérez-Reverte e Tintin


Voltei a Pérez- Reverte. Gosto da forma como escreve, como descreve, como encanta. É daqueles escritores que sabe escolher as palavras exactas, sabe construir a frases certas e sabe dar-nos a emoção e o prazer que queremos sentir.
Tenho vindo a descobri-lo, talvez tardiamente, mas muito a tempo de me deixar enlear pelas coisas belas que me oferece.
Agora leio o Cemitério dos Barcos Sem Nome e, para além da evidente capacidade encantatória que o mesmo me vai transmitindo, com o seu marinheiro anti-herói e a sua heroína misteriosa com nome africano, reparei que, pela voz da protagonista, Reverte, tal como eu, também gostou do mar que descobriu nas páginas de Tintin. Na referência a esta página de O Tesouro de Rackham o Terrível, descreveu, exactamente, a mesma sensação que eu tive quando a vi pela primeira vez.
Obrigado Reverte, pela tua escrita e por me recordares que é na infância que recolhemos o melhor da vida.

Até que 31 de Maio chegue... (IV)

E continuamos nesta caminhada de Neil Hnnon pelo belo. Hoje, dia de S. Patricio, com uma canção dedicada à sua Irlanda natal.

(...) - 8

(...)Como aquelas que ouvíamos todos os dias. Em que as palavras são desbravadas sem dó nem piedade. Amazónias virgens destruídas pela insensibilidade das pessoas.
Sempre acreditei que só devíamos falar quando conseguíssemos respeitar cada palavra, cada sílaba, cada letra.
São um bem raro, as palavras, embora ninguém pareça aperceber-se disso.
Cada palavra dita sem significado, sem querer, sem vontade, é menos uma que poderá ser aproveitada por quem, verdadeiramente, as ama.
A palavra é o bem mais precioso de toda a humanidade.
Tantos livros que são escritos sem respeito pela palavra. Sempre pensei que só se deviam escrever os livros necessários. Nem mais um.
Tanto desperdício.

Quando era criança olhava os livros que estavam na estante do meu avô e ficava horas perdidas pensando no que estaria lá dentro. Não me atrevia a pegar-lhes com medo que as palavras voassem e não voltassem a habitar aqueles livros.
Cada palavra perdida não poderia ser mais encontrada. Ou então ia misturar-se com as de outro livro e tudo aquilo que queria dizer ficaria perdido para sempre.
Por isso não lhes pegava. Olhava-os apenas e sabia que assim estariam protegidos. Os livros não são para se estragar, mesmo aqueles que já nascem estragados.
Por isso nunca me atrevi a escrever.
(...)

terça-feira, 16 de março de 2010

A lei do mercado medíocre


Porque é que o Correio da Manhã e o 24 Horas vendem o que vendem e a Meus Livros tem que fechar?

Até que 31 de Maio chegue... (III)

E aqui vai mais uma jóia deste imenso tesouro:

(...) - 7

(...)A chuva continuava a ensopar os vidros. Inclemente. Mais forte.
O vento começava o seu canto monótono. Um assobio fraco que se ia multiplicando nos meus ouvidos e não me deixava pensar. Como naquelas tardes de Inverno de há muitos anos, quando olhava o céu escuro e ouvia o vento que batia no alto das árvores que sobreviviam logo à saída de nossa casa.
Costumava tentar decifrar a voz do vento. Ouvia as suas canções e percebia os seus lamentos. Guardava-os para mim, pensando que, no futuro, os iria aproveitar e iria escrever aquelas histórias que o vento me contava.
Nunca o fiz.
Talvez por tê-las esquecido, talvez por nunca as ter compreendido verdadeiramente.
Agora tinham voltado. Era a mesma voz. O mesmo lamento.
Só eu tinha crescido. Envelhecido. E o que ouvia agora estava mascarado com muitos anos de vida. Falta-me a inocência que nos faz acreditar na natureza. Mas sei que ainda posso ouvir o vento e saber as novas que ele me traz.

Sentei-me.
Sabia que ela também o tinha feito do outro lado da porta.
Quis chamá-la, mas a voz ficou-me embargada. Não saía um único som da minha garganta.
Ouvi-a mexer-se. Percebi que me tinha percebido.
Os nossos silêncios, mesmo à distância, eram mais esclarecedores que muitas conversas inúteis.
(...)

sexta-feira, 12 de março de 2010

Graças a Deus é sexta feira

E porque é, já, sexta e porque o weekend está á porta, aqui fica alguma coisa que o vai, certamente, alegrar.

(...) - 6

(...)Ela já nem tocava a campainha. Nem batia à porta.
Sabia-me ali, do outro lado. E esperava. Com a paciência de quem tem todo o tempo do mundo e sabe que os destinos são para se cumprir.
Eu fitava-a, sabendo que tudo ela sabia. Mas sem coragem para lhe ver os olhos profundos. Sem coragem para abrir a boca e deixar sair tudo aquilo que se ia engarrafando na minha garganta.
Um grito formou-se então, prestes a sair. Como daquela vez em que nos mascarámos de índios e viemos para a rua com arcos, flechas e pinturas coloridas nas faces.
Nem sequer era Carnaval, mas isso não importava. Éramos Sioux, ou Comanches, ou Apaches. Gerónimo era o grito e nem 20 cavalarias nos conseguiriam deter.
Era assim a nossa infância.
Povoada de mil aventuras. Porque a nossa rua era um mundo ainda por desbravar. Em que cada dia surgia novo, com todas as horas por descobrir. E nós nem sabíamos o que era o tempo, porque na nossa ânsia de viver, cada minuto tinha o sabor de uma vida inteira.
Como agora. Agora já não sabíamos o que era o tempo. Porque estávamos os dois parados.
Eu do lado de dentro. Ela do lado de fora.
Ela esperando que eu abrisse a porta. Eu esperando que ela me esperasse.
Eu sabia, ela também, que não haveria outro caminho.
E só uma porta pelo meio. Que parecia tão pouco. Mas que era tanto.
(...)

quinta-feira, 11 de março de 2010

Até que 31 de Maio chegue... (II)

Segundo capítulo de uma história divina.

(...) - 5

(...)Olhei outra vez pelo olho mágico. Ela continuava ali, expectante.
Eu sabia que ela não desertaria. Ficaria ali, esperando, até que eu abrisse a porta.
Indefesa. Como uma criança. O seu olhar era o de uma criança.
Como aquele de que me lembro agora, quando me fitava ao espelho lá de casa. Daquela casa antiga, com quintal. Onde gostava de brincar. Onde criava o mundo que queria conhecer. Longe do outro, daquele que me davam todos os dias, mas que eu não queria abraçar.
Naquele quintal eu inventava, que digo eu, criava! Dali até ao infinito. O quintal tornava-se gigante, povoado de fantasias, que de tão reais se confundiam com os meus desejos mais recônditos, ali plasmados, ao alcance da minha mão, transformados em realidades que não queria perder.
Pequenos soldadinhos de plástico em castelos feitos de tijolos, jogos de futebol sem fim, com os jogadores que eu escolhia, com vitórias que eram sempre certas, porque só cabiam no espaço que eu permitia.
Estradas imensas, onde caminhos coloridos se espraiavam até onde a vista alcançava.
Amigos reais, tão reais que só eu os via.
E, na hora do lanche, aquela voz doce de todos os dias que acalmava intempéries, que sabia ser a certa, aquela que só as certezas indubitáveis é capaz de produzir.
Mas isso estava tão longe agora. Tão longe que só uma visão extra-longa podia alcançar. Com dificuldade.
(...)

quarta-feira, 10 de março de 2010

O Rui Pedro assume-se

Olha o tipo é do fóculporto.
Porque é que não estou admirado?

Até que 31 de Maio chegue... (I)

Como dissemos há dois posts abaixo, os Divine estão de regresso. Para comemorar o facto e porque ouvi-los e reouvi-los é sempre um prazer, vamos começar hoje a recordar as suas enormíssimas canções.
Começamos com esta:

(...) - 4

(...)Voltou a bater à porta. Desta vez soou mais alto.
Já sabia que eu estava ali logo atrás daquela porta que nos evitava os olhares, embora ambos soubéssemos que nos víamos mesmo assim.
Tentei pigarrear para fazer a pergunta da praxe, desnecessária.
Não consegui dizer nada. Ela, no entanto, disse o meu nome.
Eu gosto de ouvir o meu nome. Fico nostálgico. Volto a uma infância longínqua, quando o meu nome era dito por vozes doces, com tonalidades que iam do chocolate com leite até tangerinas sumarentas que refrescavam as, ainda quentes, noites de um Outono recente.
Desde essa altura que já ninguém dizia assim o meu nome. Até que a ouvi pela primeira vez. Nela, o meu nome, tinha o sabor de cerejas. Muito vermelhas e muito escuras, daquelas que não conseguimos parar de comer.
Era isso, o meu nome eram cerejas na sua boca.
(...)

E agora uma excelente noticia

É já a 31 de Maio que estará disponível, para todos os amantes da boa música, o novo trabalho de Neil Hannon na sua versão Divine Comedy.



E o tempo que nunca mais passa...

A indigestão do dragão

Antecipando a viagem a Londres, onde cinco chuvadas grossas encharcaram o dragãozito, o Henrique Monteiro ofereceu-nos mais uma excelente (e acertada) previsão.

terça-feira, 9 de março de 2010

(...) - 3

(...)Aquela que a levara até ali, sem perguntas, sem reclamações, pronta escutar, dar a mão, ser amiga e levar-me com ela, porque no fundo era nisso que tudo se resumia.
Continuei a olhá-la pelo olho mágico. Substitui a visão da janela alagada, pela dela, igualmente alagada, olhando para mim através da solidez daquela porta.
Sim, porque eu sabia que ela me podia ver através da porta. E de todas as paredes, à distância de uns breves metros ou mesmo com oceanos pelo meio.
Nem precisava de falar para ela me perceber. Aliás, sem ela eu não conseguia descodificar-me. Por isso a tinha chamado ali.
Para ver se me entendia. Sobretudo para ver se ainda conseguia falar. Para verificar se todas as palavras não tinham ficado secas na minha garganta.
Ela era uma espécie de saca-rolhas de todas as garrafas que trazia escondidas dentro de mim e que, naturalmente, não me deixavam respirar, tornando-me frágil como uma pequena peça de cristal, daquele tão puro que se poderia estilhaçar apenas com a expressão de um pensamento mais forte.(...)

domingo, 7 de março de 2010

Graças a Deus é sexta feira

Pois foi, na passada 6ª esqueci-me de postar a música que tinha prometido trazer aqui todas as sextas.
Por isso, mesmo sendo já domingo e o fim de semana esteja quase a acabar, deixo aqui mais esta canção agradável para que o domingo à noite seja mais ligeiro.

quinta-feira, 4 de março de 2010

O outro PS



Nestes tempos em que de tudo se duvida, até da sombra das nossas próprias ideias, apetece-me perguntar, onde anda este PS?



Onde estão estas PESSOAS?



Para onde foi a dignidade da luta pelos ideais que devemos seguir sem vergonha?

Outra vez as canções mais bonitas

Porque já há algum tempo que não os revisitava e porque o prazer é sempre acrescido, aqui voltamos a ouvir as canções mais bonitas.

Pré- Beatles


Aqui ainda eles nem sonhavam que a estrada ia ser longa e tortuosa...
Mas com muitas alegrias, deles e, creio, sobretudo nossas!

A selecção de alguns


A selecção de Queirós ganhou ontem à China por 2-0, com o segundo golo a ser marcado 3 minutos para lá da hora.
Nesta selecção não jogou um único jogador do Benfica. Isso, obviamente, que não quer dizer que não a apoie, porque apoio.
Mas custa-me reparar que o actual seleccionador não ponha a jogar nenhum jogador da equipa que, neste momento, mais empolga o campeonato português.
Podem sempre dizer-me que o Benfica está cheio de estrangeiros, estará, mas o facto é que esta selecção também está, aliás o segundo golo de ontem foi marcado (sem querer!) por um deles.
De qualquer forma é-me mais agradável, embora triste, verificar que a selecção Argentina, com um Di Maria em grande, ganhou na Alemanha, ou que no jogo que a selecção do Paraguai realizou ontem, Cardozo marcou dois golos.
Não queria chegar a este ponto, mas agora dou muito mais importância ao Glorioso que a esta selecção por quem nutro um enorme sentimento de desconfiança.
Desconfio que a África do Sul não passará de um passeio sem boas memórias, oxalá me engane.

ps: será que Quim, Coentrão, Ruben Amorim, César Peixoto ou Carlos Martins não terão lugar numa equipa onde estão um Rolando, um Duda, um Hilário, um Tonel ou um Paulo Ferreira?

quarta-feira, 3 de março de 2010

(...) - 2

(...)Vi, lá em baixo, que as pessoas corriam ensopadas, que nem os guarda-chuvas mais resistentes conseguiam evitar que a água que desabava do céu, encharcasse tudo o que estava debaixo dela.
Os automóveis mantinham-se parados, algumas buzinas soavam irritantes, nem percebendo que a sua impaciência era inútil.
Dei então um passo atrás, sem deixar de fitar a janela e a chuva que a acompanhava.
A campainha soou novamente, desta vez acompanhada por um leve som de alguém batendo na porta.
Ouvi, distintamente, que chamavam o meu nome. Baixinho, quase como que um pedido de favor.
Com um vagar exagerado dirigi-me à porta.
Espreitei pelo olho mágico e encontrei, do outro lado, quem eu esperava.
Estava encharcada, apesar de já ali estar há longos minutos. As gotas escorriam do cabelo, molhando-lhe a cara muito pálida, como se um choro ininterrupto acolhesse toda a réstia de esperança.(...)

Grungices

Os outros surgiram como um meteorito, levaram tudo à frente, todos lhes prestaram vassalagem.
Depois o tipo morreu, não quiz cá ficar e a aura de idolatria aumentou.
Fogo fátuo diria eu, porque entretanto, quem, neste tipo de música e de onda, por cá ficou, continuou a oferecer-nos as coisas boas.
A sério! As pérolas que merecem ser recordadas estão por aqui, ainda.
Como esta:

Hergé ainda vive


O mestre deixou-nos há 27 anos. A sua obra continua connosco.
Imortal!

terça-feira, 2 de março de 2010

Muita tripa, é o que é.



E isto será o quê?
Muita azia, ou simples estupidez natural?

segunda-feira, 1 de março de 2010

Ei, onde está o Perry?

Há muitos anos que não me divertia tanto com uma série de animação.
Sobretudo com o vilão Doffenschmirtz!

Par Bruxelles

Entretanto, por Bruxelas, vamos aprendendo...

(...)

Estava olhando a chuva que fustigava a janela quando ouvi a campainha da porta.
Virei a cabeça lentamente, como se, com esse simples movimento, pudesse abrir a porta.
A campainha soou de novo. De facto não me apetecia abrir a porta. Mas tinha sido eu que lhe tinha dito para ir ter comigo.
Rápido, vem cá a casa. Dissera-lhe sem admitir resposta.
No entanto agora, quando via as gotas grossas baterem de encontro à minha janela, já duvidava da minha intenção.
Queria falar-lhe, contar-lhe tudo, ou talvez não. Talvez tivesse sido só um impulso de quem acabava de acordar. Ou melhor, de se levantar, porque a noite tinha sido clara. Clara e cheia de sombras. Daquelas que vão enchendo, primeiro as paredes do quarto e depois se vão embrenhando pelo cérebro, até não deixarem lugar para nenhuma luz.
A campainha soou pela terceira vez.
Eu sabia que iria continuar a insistir. Que não desistiria. A minha ordem não admitia negação. Era impossível não lhe obedecer.
Mas eu já não sabia se o que mais desejava era falar-lhe ou continuar ali, imóvel, olhando aquela espécie de dilúvio contido que se ia abatendo sobre a minha janela e que já me molhava a mim também.
(...)