sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
De regresso
Quando saiu de casa teve a certeza de que jamais voltaria. Vivia sozinho desde que a sua família tinha sido assassinada pelo outro.
O dia ia ser longo, tão longo que não teria fim. As suas certezas eram, hoje, mais certas que nunca. Por isso levou o chapéu à cabeça, ajustou o cinturão e assobiou baixinho. Depois começou a descer a rua com passos lentos, compassados, decididos. Quanto chegou à porta do outro chamou-o com um grito seco e forte.
Nem tempo teve de se virar, o outro, traiçoeiramente, como era seu uso, disparou primeiro, pelas costas. Ao cair teve ainda tempo de ver o céu e percebeu, naquele instante, que não importava ser ali, naquele mundo onde as injustiças imperavam. Fechou então os olhos e voltou a sorrir, há tanto tempo que não o fazia.
Quando recuperou a vontade, pouco depois, sentiu-se livre como nunca sentira e foi com uma agradável sensação de leveza que voltou a casa. Entrou pela porta das traseiras e chamou a mulher e os filhos.
Agora sim, disse-lhes, agora podemos ser felizes.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
A besta sarrafeira
A mim ninguém me tira que algum bicho azul deve soprado a este lacaio sarrafeiro alguma coisa sobre o Rodrigo. E a besta mais não fez do que aquilo que sabe, magoar severamente um jogador de futebol. Para quando a erradicação destes animais dos campos de futebol?
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Famílias
As famílias não são, a maior parte das vezes, como gostaríamos que fossem, principalmente as nossas. Por muito que nos matemos a tentar fazer com que as pessoas da nossa família sejam, vivam, pensem, de acordo com as nossa expectativas, elas saem sempre goradas, há sempre uma prima que não está de acordo com aquilo que pensamos que ela poderia ser, há sempre um tio que se engana no nosso nome, há sempre um avô que gosta mais do nosso irmão do que nós. Nunca acertamos nas nossas famílias, é mais que certo.
Fundamentalmente porque as famílias são constituídas por pessoas e não por estereótipos daquilo que julgamos ser melhor e isso é uma realidade com a qual nos custa conviver. Por isso lá vamos escolhendo as nossas famílias fora dos laços de sangue, constituindo, muitas vezes, famílias paralelas, escolhidas por nós, onde cada elemento está de acordo com aquilo que julgamos mais acertado. São famílias emprestadas, falsas, mas com as quais nos sentimos bem. No fundo uma família mais não é que um conjunto de pessoas com quem partilhamos momentos, histórias, carinhos, mesmos que o sangue seja muito diferente, mesmo que as afinidades tenham nascido, apenas, dum convívio que nos foi abrindo as portas dessas pessoas que, afinal, passaram a constituir a família que sempre desejámos. Normalmente chamamos-lhes amigos e assim deve ser, uma boa família deve ser constituída por amigos, de sangue ou de outra coisa qualquer.
Como esta.
Fundamentalmente porque as famílias são constituídas por pessoas e não por estereótipos daquilo que julgamos ser melhor e isso é uma realidade com a qual nos custa conviver. Por isso lá vamos escolhendo as nossas famílias fora dos laços de sangue, constituindo, muitas vezes, famílias paralelas, escolhidas por nós, onde cada elemento está de acordo com aquilo que julgamos mais acertado. São famílias emprestadas, falsas, mas com as quais nos sentimos bem. No fundo uma família mais não é que um conjunto de pessoas com quem partilhamos momentos, histórias, carinhos, mesmos que o sangue seja muito diferente, mesmo que as afinidades tenham nascido, apenas, dum convívio que nos foi abrindo as portas dessas pessoas que, afinal, passaram a constituir a família que sempre desejámos. Normalmente chamamos-lhes amigos e assim deve ser, uma boa família deve ser constituída por amigos, de sangue ou de outra coisa qualquer.
Como esta.
Luar (IV)
(...)Cá fora, na rua, as pessoas continuavam alegres, coloridas, viviam aquela noite de verão claro como se fosse o último dia que estivessem na terra.
Ele olhava estupefacto para a sua janela, para a janela da sua casa minúscula, a janela da sala pequena onde tinha só um sofá, onde guardava as músicas e as letras que sempre lhe fizeram companhia e via-se a si próprio, rodeado por uma luz imensa, por figuras indescritíveis, seres de luz, seres que clareavam a escuridão que saia da sua sala, que tornavam que aquela sala diminuta se tornasse num foco de claridade, como se a lua cheia que naquela noite se desenhava tão claramente no céu, tivesse invadido o seu pequeno espaço.
Não entendeu se o que se passava era real ou se era apenas a sua mente que o iludia.
Reparou então que ao seu lado as pessoas alegres e coloridas que viviam aquela noite como se fosse a última, paravam a mirar a janela da sua sala, apontavam e soltavam exclamações abafados, os seus rostos já não estavam alegres, mas sim apreensivos.
Ele levou a mão ao rosto e sentiu-o macio, sem um pelo que fosse a assomar-lhe as faces, sentiu que na sua boca estalava um sabor adocicado e que no seu peito se abria uma sensação nova, tão longe das dores que sempre sentira.
Ouviu então um som uníssono, que saía das vozes das pessoas que tinham estado alegres e que agora estavam apreensivas e olhou na direcção da sua janela ainda a tempo de se ver saltar, de braços abertos, como se esperasse levantar voo. Atrás de si irrompiam labaredas que, podia jurar, tinham formas quase humanas, seguidas por uma grande bola que se assemelhava à lua que lá cima tudo iluminava.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Luar (III)
(...)Uma guinada mais forte fê-lo estremecer, soltou as mãos da sua cabeça e, inadvertidamente, tocou o copo vazio que estava ao lado do sofá. Ao quebrar-se o copo fez com ele abrisse novamente os olhos e despertasse da lassidão em que se vinha encontrando.
Assomou-lhe então um breve sorriso, próximo de um esgar incontrolável. A boca ainda lhe sabia mal, mas ele teve um lampejo daquilo que achou ser a lucidez.
Recostou-se no sofá, no único sofá daquela sala diminuta. Olhou à volta, descobriu os livros e os discos que estavam espalhados pelo chão, os sons e as palavras que tinha escolhido para si, havia já tanto tempo, ou assim lhe parecia.
Reparou então que estava às escuras e resolveu rodar o interruptor que ligaria a lâmpada eléctrica que estava dependurada de uma espécie de fio no tecto da sala. Quando o fez a lâmpada estilhaçou-se em mil pedaços, mas, apesar disso, uma luz surgiu, como se o tecto da sua pequena sala se tivesse aberto e pelo buraco jorrasse a energia de milhares de lâmpadas iguais à que se tinha quebrado.
Mais uma vez não compreendeu o que se passava, se aquilo era real, ou se à sua mente tinham voltado as figuras de luz, só que agora mais fortes, mais brilhantes, com um poder nunca visto ou sonhado.
Lá em cima viu que a lua, as figuras de luz que tinha criado na sua cabeça e ele próprio, se aproximavam mais da terra, da sua cidade, de sua casa. Então, numa explosão sem som, numa chuva de luz sem igual, penetraram na sua sala, naquela sala mínima da sua casa ínfima.
Descobriu-se a si próprio olhando incrédulo para aquela imensidão de luzes, sem perceber se o que se passava era real, ou se à sua mente tinham voltado as luzes que, pensava, só existiam na escuridão que tinha criado. (...)
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Luar (II)
(...)Esticou uma mão, lentamente, como que a querer tocar-lhe. Esticou o corpo. Subiu o parapeito da janela e deu por si a flutuar ao encontro da lua. Como se o seu corpo se soltasse, leve, num movimento de perpétua ligeireza. Ao seu lado materializavam-se todas as formas que tinha visto no interior da sua cabeça, dele próprio começou a irradiar uma luz, igual aquela que saia das outras formas.
Sentia-se um personagem feito de luz, tal como os outros, tal como a lua que estava agora maior, ou mais perto, ao alcance da sua mão.
Lá em baixo as pessoas continuavam a caminhar com as suas cores, os seus risos sonoros, as suas vidas risonhas, ou só aparentemente, alegres. O verão estava feliz naquela noite de grande luar, de uma enorme lua brilhante que era agora acompanhada por outras figuras de luz de que ninguém parecia aperceber-se.
Viu ainda a sua casa e conseguiu perceber a sua janela aberta de para em par e uma silhueta negra parada sobre o parapeito, mãos estendidas para o céu, estremecendo e hesitando em saltar ou voltar para dentro.
Voltou a sentir no interior da sua boca aquele sabor rouco, a ervas queimadas, que lhe arranhava a garganta e bem mais que isso, lhe tornava o peito feroz, azedo.
A lua continuava enorme à sua frente, as figuras de luz tinham entretanto desaparecido naquela imensidão de luz que jorrava daquele luar imponente. No interior da sua cabeça já não havia agora lugar para tais figuras, a escuridão tinha desaparecido e tudo era só luz, brilho, incandescência, uma fogueira indomável, um imenso rio de lava que o queimava e não deixava espaço para a escuridão que o mantinha vivo.
Lentamente desceu do parapeito e fechou a janela. Lá fora o ruído como que parou, as cores das pessoas que passavam alegres desapareceram.
Sentou-se novamente no único sofá daquela sala minúscula, daquela casa mínima, daquela cidade que vivia alegremente o seu verão colorido sem saber que naquela sala, naquele sofá ele voltava a enterrar a cabeça entre as mãos e voltava a sentir os pelos da barba mal feita a enterraram-se lente, mas persistentemente, na carne entre as unhas. A dor voltou-lhe ao peito, vagarosa a perfurar-lhe o esterno e a subir-lhe, inexorável, pelo rosto em direcção ao cérebro. (...)
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Luar (I)
Estava sozinho em casa, sentado no sofá da sala, naquele único sofá daquela pequena sala. Escondia a cara entre as mãos, sentia os pelos da barba a penetrarem, duros, nas extremidades dos seus dedos, entre as suas unhas. Ia pensando, nada em concreto, pensava na dor que os pelos lhe provocavam ao cravarem-se na carne entre as unhas, pensava que tinha sede e pensava sobretudo que não tinha vontade. Não tinha vontade de nada. De sair daquela posição, de levantar o rosto, de se barbear, de pensar.
Doía-lhe o peito. Uma dor ao mesmo tempo fina e grossa, ou melhor, às vezes fina, mas que ia engrossando até ser quase insuportável e que depois se ia esfumando lentamente até quase desaparecer e depois voltava ao inicio.
Ao seu lado estava pousado um copo vazio, logo ao lado de uma garrafa igualmente vazia. Na sua boca ainda permanecia um leve trago a uísque barato, não era, aliás, um leve travo, era uma rouquidão impossível de tratar, era um ronco infinito que na sua garganta se havia formado para nunca mais desaparecer.
Mantinha os olhos fechados, admirando o interior da sua cabeça, ou assim queria acreditar. Que aquelas coisas que via com os olhos fechados fossem o interior da sua cabeça, aquilo que lhe alimentava as ideias, ou a falta delas.
Luzinhas fugidias, imagens difusas que se iam formando, escapando-se-lhe por entre a escuridão que vivia lá ao fundo, no interior da sua cabeça, figuras humanas feitas de luz, feitas, talvez, de uma imaginação que poderia ser fértil ou apenas estranha.
A sala onde se encontrava estava despedida, despida de mobiliário, para além do sofá onde se sentava tinha apenas uma mesa baixa e um conjunto desirmanado de cadeiras, depois eram livros e discos espelhados pelo chão, sem disposição aparente, a um deus dará que depreendia de tudo o resto e até dele próprio. Mas aquela sala parecia igualmente despida de emoção, toda ela era silêncio perturbador, embora lá fora o ruído da cidade se manifestasse forte. Para além daquela sala nada mais havia naquela casa que ressaltasse, era uma casa pequena e também ela vazia.
Quando abriu os olhos continuou a ver as formas que se tinham formado na sua cabeça, no seu interior, na escuridão que o consumia.
Levantou-se devagar e procurou outra garrafa, a boca e alma pediam-lhe a aspereza da bebida maldita que era a única que bebia. Acercou-se da janela e abriu-a de par em par. Lá fora era verão, havia gente nas ruas, cores e gritos, aquilo a que se chamava alegria parecia despender-se das ruas, das vozes, das caras das pessoas. Era noite e o céu estava azul-escuro. Bem lá no meio uma enorme lua recortava e iluminava tudo, quase lhe parecia ser mais uma das imagens que formara no seu interior escuro, uma bola que irradiava luz, uma luz baça mas forte.
Deixou-se ficar a olhá-la, a deixá-la aproximar-se de si, até que nada mais conseguia ver, só o escuro que rodeava aquele círculo de luz que se mexia, que lhe vinha ocupar todo o espaço que lhe restava. (...)
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