sexta-feira, 27 de maio de 2011

Graças a Deus é sexta feira



E vivam os fim de semana kitsch! Mas bem melodiosos...

quinta-feira, 26 de maio de 2011

frases (imper)feitas (XXV)


...e o dia há-de chegar em que apenas nos restará lembrarmo-nos do quanto nos foi difícil esquecer que esse dia haveria de chegar...

O Alto (VIII)

(...)
E hoje, quando o olhei vi-nos a correr, logo pela manhã, a chamar uns pelos outros,
Vamos jogar ao guelas, eh Necas faz aí as covinhas, Nandito trouxeste a bola? Dois para dois ali no canto. Marito as caricas estão contigo? O Brites já está a desenhar a pista com o giz e o Maluco foi à chinchada, vem ali cheio de ameixas, daquelas verdes, uh ganda dor de barriga que aí vem.
Ao longe parece que foi há tanto tempo, mas se nos aproximarmos, se virarmos o tempo para nós, percebemos que foi mesmo agora, que nunca deixámos de lá ir e que o tempo deixou de existir, foi um fogacho que durou breves segundos, o instante que demora um fósforo a calcinar.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Histórias com Música (46)

Vagueio numa espécie de neblina. Num mundo translúcido onde ninguém me pode alcançar. Passo por muitos lugares. Lugares que conheci e outros onde nunca tinha estado.
Passo por aqui sem pesos nem dores. Como se uma leveza me trouxesse pela mão e me deixasse pairar enquanto o tempo não passa. Aqui o tempo nunca passa.
Vou-me deixando ficar. Naqueles sítios em que, apesar de toda a névoa me rodeia, o sol ainda vai aquecendo vontades.
Não sei se hei-de acreditar em tudo o que vejo e ouço. Parecem-me coisas demasiado cruéis, aquelas que se desprendem das mentes das pessoas com quem me cruzo. Sentimentos errados. Vinganças, azedumes, crispações e medo, muito medo.
Vejo um mundo carregado de rostos amedrontados, mesmo naqueles que não me vêem, que são quase todos, pelos menos até chegar a sua hora.
Sei que, quando me conseguem ver, olhar bem no fundo dos meus olhos, o medo se vai e seguem-me como se não houvesse outra escolha, como se o meu caminho fosse o último. Depois libertam-se de mim e passam a vaguear por si próprios. Também a esses uma neblina permanente se prende.
Mas eu sei que é em mim que depositam todas as expectativas. É a mim que todos acabam por chegar e, nessa altura, só nessa altura, dizem as derradeiras palavras:
Eu acredito em ti!

Robert Zimmerman - 70 anos

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Portugal não é um país pequeno


Ora aí está a fonte de inspiração para arregimentar gente de proveniências tão diversas para os comícios de apoio ao senhor José Sócrates.

O Alto (VII)

(...)
Jura quem por lá passou e que o conhecia, que nunca o viu chorar, ou lamentar-se, mas foi perdendo vivacidade, alegria e quase que morreu.
Tal como nós que o deixamos assim e que teimamos em não lá voltar.
Envelheceu. Tal como nós que nos esquecemos uns dos outros. Até que nos surge aquele dia em que acordamos as memórias e nos apercebemos que o nosso tempo se foi como um fogacho.
Porque quando o tempo é só lembrança sabemos que o presente está ao alcance da mão.
E é por isso que lá vamos voltando, mesmo que seja para ver o tempo que passou, ver as suas marcas e entender que a velhice não é uma maldição, mas apenas uma atitude. E mesmo que todos estejamos ausentes, mesmo que o Alto não passe hoje de um conjunto de árvores raquíticas, todos sabemos que aquele passado continua a ser o nosso futuro.
E quando um de nós lá põe o pé ouvimos a água do repuxo voltar a correr, mesmo que o repuxo tenha secado há muito, vemos os pardais esvoaçarem por entre as folhas dos enormes carvalhos, mesmo que agora só existam ramos secos, sorrimos ao perceber todas as gargalhadas que ainda conseguimos escutar, mesmo que agora nenhuma criança ali ponha pé.
O Alto sabe que não precisamos de lá ir para o sabermos de cor, sabe que mesmo que nenhum de nós lá volte nunca o esquecemos, sabe que agora que definha e desaparece, nunca morrerá, porque nenhum de nós morre também enquanto ele estiver connosco.
(...)

domingo, 22 de maio de 2011

104 anos

Histórias com Música (45)

Pegou nela pela mão, olhou-a nos olhos e encaminhou-a para o carro.
Olharam ambos o fio do horizonte onde um sol tranquilo se ia deitando.
Carregou no acelerador e arrancou. Primeiro o caminho fez-se suave, sem curvas e contracurvas, sem sombras, nem ruídos. Depois meteu a quinta velocidade e fechou o olhar.
A seu lado, ela fez o mesmo. Com os olhos semicerrados mal deixavam entrar os últimos raios de sol que os visitavam pela frente.
Acelerou, rapidamente atingiu a velocidade de cruzeiro. Quase que deixou de prestar atenção ao caminho. Os olhos fechavam-se momentaneamente, os dele e os dela. Do motor saía um rouco surdo, baixo e contínuo, mal se dava por ele.
O caminho continuava sempre em frente. As curvas que surgiam eram ultrapassadas quase sem darem por isso. Cortavam-nas sem se aperceberem.
Juravam nunca ter saído daquele carro, embora várias testemunhas tenham afirmado, convictamente, que os tinham visto sair, várias vezes. Que os tinham visto parar e caminhar. Que os tinham visto falar e até sorrir.
Mas nenhum deles se lembrava disso. Continuavam em velocidade de cruzeiro. Sempre em frente. Rumo ao sol que já se tinha posto. Em direcção a uma noite que não conhecia estrelas. Escura como breu. Como aquele alcatrão em que vogavam silenciosamente.
Quando o dia começou a despertar encontrou-os a velocidade ainda maior. Numa vertiginosa embalagem que já não admitia retorno.
Não conheciam o seu destino, nem isso lhes ocupava, minimamente, os pensamentos. Aliás estavam convictos que já não tinham pensamentos. Que avançavam apenas, sem nada esperar, sem nada importar.
Antes de chegarem à beira do abismo não repararam num sinal que avisava os mais incautos de um perigo iminente. Passaram-no a alta velocidade, roçando-lhe ao de leve.
Há quem jure que conseguiram sair do carro no último instante. Outros afirmam que não, que voaram em direcção ao precipício sem esboçarem o mínimo sinal de preocupação.
Na verdade nunca ninguém soube bem o que acontecera. O carro nunca foi encontrado. No caminho que fizeram nada ficou para testemunhar a sua passagem.
Apenas um leve vestígio ficou. Um sinal de trânsito quebrado jazia no chão a poucos metros do despenhadeiro. Apesar do mau estado em que se encontrava ainda era possível ler duas palavras, ESTRADA e FIM.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Graças a Deus é sexta feira



Um fim de semana agri-doce (porque também os há assim)

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O Alto (VI)

(...)
Aos adultos não era permitida a permanência naquele reduto ímpar. Só mesmo o Ti Alfredo, o Ti Máximo e o Ti Zé, velhos guardas de jardim que nos atormentavam os dias, mas que, ao mesmo tempo nos mostravam histórias do arco da velha quando a acalmia surgia. O Ti Máximo e o Ti Alfredo saíram cedo dali, o Ti Zé ficou mais tempo, não conseguia correr atrás de nós. Era manco e a sua velha bengala de madeira não o ajudava muito. Mas eram nossos amigos e assim ficaram, mesmo depois de todas a tropelias, depois de todas as zangas, dos impropérios de uns e outros. O Ti Zé gostava de nos contar histórias da sua terra e foi ficando mesmo depois de todos nós termos partido. Um dia cansou-se e resolveu ir também, procurou a morte antes dela o ter chamado.
No Alto nem todos podiam entrar, não que tivesse portas, ou gradeamentos, nem qualquer entrave físico, apenas porque o acesso aquele mundo pequeno só era permitido a quem lhe pertencesse. E não era fácil ser por ele aceite.
Lembramo-nos de muitos que por lá passavam e de alguns que se atreviam a sentar-se nos seus bancos, mas ele sabia bem quem por lá podia ficar e não tardava a afugentar quem não merecia. Todos nós sabíamos que assim era e seguíamos-lhe os desejos, porque assim sabíamos também em quem confiar e de quem desconfiar.
Quando atingimos a idade em que os armários se abriram resolvemos sair do Alto, sem dúvidas, porque é nessa altura que todas se esbatem. Pensamos nós.
E depois disso ninguém mais lá parou e o Alto começou a definhar, pelo menos perante os olhos de quem não o conhecia.
(...)

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Memórias

E do meio do nada surge uma canção a bailar por entre as nossas memórias. Um sorriso bom.

Tintin americano?

Já se pode ver o trailer e eu continuo com muitas dúvidas que este seja o mesmo Tintin do qual sou um admirador fanático.

terça-feira, 17 de maio de 2011

frases (imper)feitas (XXIV)


...mesmo que nos tenhamos olhado nos olhos, sabemos que fomos os dois inventados numa realidade que não queremos verdadeira, porque essa, essa é aquela que nunca existiu...

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O Alto (V)

(...)
Mas na verdade não interessa se eles conseguiram perceber se se tratavam de extraterrestres, se falaram com os pais ou com a professora. Retemos a cumplicidade, a partilha, a vontade de apreender, de se perderem e encontrarem todos os dias, de viverem no limite da sua infantilidade que, no fundo, conseguiram recuperar todos os dias de toda a vida, por isso lá voltavam de quando em vez, não só ao Alto, mas, sobretudo, a si próprios, sabendo, de antemão, que todos esses regressos mais não significavam que tentativas para atrasar o inevitável. Mas, no fundo, sabiam que essa inevitabilidade nunca os impediria de se tornarem os senhores do castelo sempre que o desejassem.
Como naquele dia em que o Papuço trouxe o seu gira-discos portátil, e um conjunto de singles que ninguém conhecia só para agradar à prima do Guel que tinha vindo da província passar uns dias com ele. O Papuço abriu aquela caixa mágica e pôs os discos a tocar, tornando aquele momento numa serenata que o deixava maravilhado e que a nós, todos os outros, se tornou insuportável. Claro que o Papuço foi gozado todo o santo dia, e os outros que se seguiram e que a prima do Guel nunca para ele olhou, mas ele sentiu-se feliz por ter trazido um pouco de alegria ao Alto e, no fundo, nós também.
Era assim que se vivia o quotidiano no Alto, na Ilha dos Cucos, como também lhe gostávamos de chamar. Campo de futebol, pátio de recreio, recanto de namorados, jardim infinito, em que nunca perdíamos o norte, nem quando a noite vinha.
(...)