quinta-feira, 5 de maio de 2011

O Alto (II)

(...)
O Alto era apenas um jardim. Pequeno, com não mais de uma dúzia de bancos vermelhos e alguma relva que já vira melhores dias.
No seu centro havia um caramanchão, que lhe dava uma dignidade única e o tornava tão singular aos olhos de quem por ali passava.
Mas para eles era aí o centro do universo.
E ainda hoje quando o cabelo se tornou neve e os olhos já não permitem ver todos os vales e desfiladeiros que ali existiam há tantos anos, eles sabem de cor tudo o que o Alto esconde e sobretudo conseguem ainda ouvir todas as palavras que ali foram ditas, mais importantes que todos os segredos de estado, mais fortes que todos os poemas que embelezam os dias, porque ali se fizeram e afinal descobriram que, mesmo sem retorno, as memórias são pequenas fontes de onde jorra o elixir da eterna juventude.
O António e o Luís, o Fernando e o Eduardo, o Zé e o Jorge, o Mário e o João eram alguns dos nomes que por lá viviam, mas se lhes perguntarmos dirão que não eram esses, que eram outros os nomes, porque ali ninguém tinha o seu nome, ali todos eram conhecidos por outros nomes, que mais ninguém sabia, a quem mais ninguém poderia interessar, porque esses eram os nomes do segredo e esse segredo era o mais bem guardado do mundo.
(...)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

TOU XIM...


E agora, que ao que parece já há acordo para que os senhores do dinheiro entrem por aqui adentro e levem o pouco (quase nada) que nos resta, talvez possamos pensar um bocadinho mais nas asneiras que todos temos vindo a fazer nestes últimos 30 anos e consigamos chegar à conclusão que todos esses senhores que nos andaram a comandar durante todo esse tempo não são, evidentemente, capazes de nos levarem a bom porto.

Talvez esta próxima eleição seja uma excelente oportunidade para, pela primeira vez, dizermos bem alto que eles não servem. No entanto, se quisermos continuar a pastar no mesmo campo, então continuemos a deixar-nos levar pelos mesmos pastores, aqueles que se apressam a atender o telemóvel topo de gama e a responder:
TOU XIM? É P’RA MIM!

O Alto (I)

Reconheciam-se sem fronteiras. Num mundo feito de todas as fantasias que lhes eram permitidas. Num espaço pequeno que era maior que o Universo. Conheciam-se como ninguém.
Sabiam a que horas chegavam e, sobretudo, sabiam que nunca partiriam.
O Alto era o seu destino, numa vida que não queriam diferente. Ainda sem desconfiarem que iriam crescer. Ainda sem perceberem que a infância é uma felicidade fugaz, maldita, porque a deixamos ir embora sem remorso, sem dor, a não ser aquela que chega, sem avisar, no dia em que, finalmente, descobrimos que não há retorno. Nunca há retorno.
Mas, naquela altura, o horizonte é algo que está muito distante. Tão distante que nenhum tempo o conseguirá alcançar.
Era assim todas as manhãs quando iam chegando, aos poucos, ao Alto e se iam sentando nos bancos vermelhos do caramanchão. Formavam então a sua assembleia. Riam. Gritavam. Discutiam.
O mundo estava apenas no seu início.
Desbravavam caminhos que não conheciam, rumos mais perigosos que os mares nunca antes navegados.
E partiam à aventura. As ruas transformavam-se em mistérios, as casas em árvores frondosas e o tempo parava num cristal infinito que os levava para além do conhecido.
E nem o regresso forçado a uma realidade que não queriam, os obrigava a deixar o sonho.
Até que o dia seguinte chegasse e a aventura recomeçasse.
(...)

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Morreu um "monstro"


Hoje foi morto um monstro.
Um homem que espalhou terror, que matou inocentes e menos inocentes, mas, sobretudo, que matou. Fez aquilo que pensou ser uma espécie de justiça pelas suas próprias mãos.
Matar é sempre mau, embora haja quem julgue que, por vezes, se torna indispensável.
Confesso que a primeira vez que ouvi a notícia da morte deste homem fiquei agradado. Porque ele simbolizava o mal, o terror, a morte e o sofrimento. Depois pensei que era apenas um homem e que o mal, o terror, a morte e o sofrimento não irão desaparecer com esta morte. No fundo foi apenas mais uma, das muitas já perpetradas por ele e por aqueles que o mataram.
Não sei se o mundo ficou melhor, sei apenas que a morte continua bem viva!

Histórias com Música (44)

Nunca te conheci, nem tu a mim…
Nunca me apareceste, nunca me seguraste a mão, nem me olhaste nos olhos.
Procurei-te muitas vezes, pelos caminhos que percorri, dentro dos medos que tive, no meio dos escombros em que me encontrei.
Sei que também andaste por lá, por esses escolhos que nos trouxeram até aqui, pelas demandas em que nos perdemos, sem nunca nos vermos.
Chamei-te vezes sem conta e nunca te ouvi resposta. Penso que o mesmo aconteceu contigo.
Ainda me dói hoje, quando te sonho, em sonhos que se esfumam em fumos escuros, sem nunca me dar descanso, sem nunca te saber…
Nunca te vi, nem tu a mim…
Nunca vi a cor dos teus olhos, o calor das tuas mãos, a tua silhueta.
Embora te tenha perdido sem nunca te encontrar, sei que se me tocasses o mundo seria de outra forma. Mais perfeito naquela imperfeição que todos conhecemos. Mais doce, naquela amargura que todos esperamos. Mais colorido naquela escuridão que a todos persegue.
Sei que nos iríamos entender, sem palavras, sem gestos sequer, apenas com os olhares, evidentemente, cúmplices, mesmo daqueles que saberíamos obter quando os nossos olhos estivessem fechados.
Sei estas coisas, como decerto tu também saberás. Como sei que nos iríamos zangar vezes sem conta, por que é assim que tem que ser. Mas apenas para podermos regressar um dia a nós próprios. Mais inteiros, mais completos nas nossas insignificâncias. Mas felizes por podermos ser nós.
Apenas nós. Como devia ser.
Mas eu nunca te encontrei, nem tu a mim…
E hoje fico assim, com um buraco aberto, sangrento, imenso, na minha alma incompleta.
À espera que me digas, estou aqui, sou eu. Mesmo que nunca nos tenhamos olhado nos olhos, sabemos que somos os dois, inventados numa realidade que não queremos verdadeira, porque essa, essa é aquela que nunca existiu.

Eleições 2011


Digam-me é este o caminho certo?
Ou será que, desta vez, arriscaremos sair do carreiro e experimentar algo de novo?

domingo, 1 de maio de 2011

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Graças a Deus é sexta feira



Meus caros amigos, um excelente fim de semana!

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Histórias com Música (43)

Quis saber quem sou
o que faço aqui…


Nos seus olhos sentia-se o medo. Não era um medo feio e frio. Era um medo esperançoso.
Um olhar onde se podia ler um conjunto de emoções fortes e decisivas.
O coração batia mais depressa, havia uma pressa em chegar, uma ânsia em conseguir.
As mãos retesavam-se nervosas, agarrando com força as armas.
Não sabiam muito bem onde iam, mas iam com uma vontade sem freio, com uma determinação inabalável.
As palavras que lhes haviam dito há pouco tinham-lhes despertado uma consciência que nem sabiam existir em si. Tinham-lhes feito ver coisas com que nunca tinham sonhado.
Agora estavam despertos para aquilo que eram e sabiam que o que depois viria poderia mudar a sua vida.
A sua e a de tantos outros.
A de um país inteiro.
Alguns trauteavam ainda as palavras que tinham ouvido na canção que os havia despertado naquela noite.

…perguntei por mim
quis saber de nós…


O caminho era ainda longo.
Eles olhavam-se expectantes. Sorriam uns para os outros. Sorrisos tímidos. Por vezes soltava-se uma gargalhada nervosa.
Longas baforadas de fumo sobrevoavam a s suas cabeças.
A noite estava fria, mas todos, sem excepção, sentiam um calor que lhes vinha de dentro e que subia perfeito no peito de cada um.
Lá á frente viam o jeep que abria a coluna.
Ele ia em pé. Não se sentara um segundo. Também ele estava nervoso. Decerto o seu olhar tinha o mesmo tipo de medo que todos ostentavam. Mas cada um dos homens que ali ia, sabia igualmente que não havia determinação maior.
E todos estavam com ele. Segui-lo-iam para onde quer que fosse.
Também nele as palavras da canção se iam materializando a cada momento.

…morri nele
e ao morrer
renasci…


Era certo que havia uma necessidade de renascer. De tornar possíveis coisas até aí impensáveis. De poder cantar e dizer, de poder discordar e perceber.
A morte tinha andado à solta por muito tempo. Este era o momento de parar com tudo o que tornara impossível a felicidade. De acabar com tantos anos de escuridão, de abrir uma janela por onde pudesse entrar a esperança de um novo sol.
E eles ali estavam para isso.
Era isto que ele pensava.
Tinha sido isto que tinha dito aos seus homens, mesmo que tivesse usado outras palavras, mesmo que tivesse apenas ficado parado e calado em frente a eles.
Eles saberiam ler nos seus olhos tudo aquilo que ele lhes queria dizer, tudo o que lhe ia no fundo do coração.
E todos eles o acompanharam sem hesitação, sem perturbação sequer.
Com todas as dúvidas a assaltarem-nos, mas com uma convicção forte, sem limites.
Todos estavam juntos nisto.
Eles e todos os outros que, como eles, se tinham posto a caminho naquela noite. Depois de a canção ter soado.
E eram muitos, todos na mesma direcção.
Mesmo que a sua vida nunca mais fosse a mesma, mesmo que a dor sobreviesse e os levasse, eles estavam convictos de que o seu caminho era aquele.

…tua paz
que perdi
minha dor
que aprendi…


Quando a manhã se levantou encontrou-os perto do rio. Expectantes. Nunca como agora.
Depois de todo o caminho tinham chegado e ali estavam, prontos para tudo.
Em cada olhar continuava a pairar o mesmo medo, mas agora a luz do sol e os reflexos da água tinham-lhe dado uma outra cor e eles, todos eles, sabiam
que apesar de todas as despedidas inevitáveis, de todas as partidas obrigatórias, nunca mais iriam ficar sós.

…e depois de nós
o adeus
o ficarmos sós.


Capitão! Meu capitão Maia! Estamos prontos!

segunda-feira, 25 de abril de 2011

sábado, 16 de abril de 2011

O Pinho engraçado


Está, finalmente, esclarecido.
Pinho nunca quis ofender ninguém.
Pinho sempre teve uma admiração inconfessada por Charlie Chaplin.
Pinho apenas pretendeu imitar o seu ídolo.
Só que Pinho não tem graça...

sexta-feira, 15 de abril de 2011

frases (imper)feitas (XXIII)


...o meu nome são cerejas na sua boca...

Graças a Deus é sexta feira



E que o fim de semana possa ser assim, tão perfeitamente melodioso.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Otelo e o 25 de Abril


“Não teria feito o 25 de Abril se pensasse que íamos cair na situação em que estamos”
Otelo Saraiva de Carvalho

Sempre pensei que o 25 de Abril tivesse sido uma obra colectiva.
Sempre supus que o 25 de Abril tinha sido feito por um grupo de oficiais subalternos indispostos com a não atribuição de direitos que julgavam seus.
Sempre acreditei que o 25 de Abril teve como objectivo dotar o país de um conjunto de direitos e deveres que andavam, há muito, arredados das práticas correntes no país.
Sempre achei que Otelo tinha mais olhos que barriga e uma grande tendência para o disparate!

Continuo acreditar no 25 de Abril e nos seus valores, mesmo que os actuais decisores não o façam e continuem a desacreditar aquilo que, na verdade, significou essa data.
E nunca concedi, unicamente a Otelo, a paternidade de um acontecimento tão relevante para Portugal.
Hoje e sempre as revoluções não são de alguns cabecilhas que pensam que as fizeram, mas de quem nelas pegou e continuou.
Também por isso gosto de dizer 25 de Abril Sempre, porque me parece que o interregno em que Abril se encontra, já dura há tempo demais.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Histórias com Música (42)

Quando abriu os olhos naquela manhã, tudo lhe parecia diferente.
Não conseguiu perceber se eram as cores que tinham mudado, se era a textura do dia, ou se era o local onde estava.
De qualquer forma soube que havia diferenças que, embora não evidentes, eram indesmentíveis.
Passou as mãos pelo corpo e sentiu o mesmo que todos os dias. O calor que dele emanava, a luz que nele sempre se centrava, os olhares que em si sempre pousavam mal o dia se abria.
Olhou em volta e viu os seus companheiros de todo o tempo. Ali estavam eles, reluziam com o sol que se desprendia dum céu azul que já brilhava lá fora.
Os passos solitários, que todas as manhãs por ali soavam, aproximavam-se e ele sentiu que lhe limpavam todos os poros, libertando-o duma espécie de poeira que a noite lhe acumulara.
Parecia um dia como tantos outros que ali tinha passado. Mas aquela sensação de estranheza, de mudança, de corte, não o abandonava.
Mesmo assim resolveu assumir a sua pose. Era para isso que ali estava, fora só para isso que o ali tinham posto há já tanto tempo.
Foi então que ouviu ruídos estranhos. Não eram os habituais aquela hora do dia. Alguém se aproximava dele, falando em voz alta, dizendo coisas que não conseguia entender. Que não queria entender.
Foi então que o seu mundo se virou de pernas para o ar e ele confirmou a sua suspeita. Algo de inabitual se estava a passar.
Ao ser embrulhado ainda conseguiu ouvir a mesma voz e percebeu então o que se passava.
Só levo este quadro, é o único de que nunca me separarei…