terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Histórias com Música (34)
Ao acordar naquela manhã tudo, à sua volta, estava branco. Duma brancura translúcida, sufocante. A alvura espalhava-se do seu quarto até à rua. Olhando pela janela confirmou que toda a paisagem se tinha descolorido, tudo estava sem cor, cheio de um branco doentio que lhe cortava a respiração.
Abriu a janela e sentiu um ar frio, quase gelado, que se foi entranhando por todos os seus poros, até mais nada sentir que uma imensidão vazia que lhe ia preenchendo o corpo.
Sentiu-se desvanecer e percebeu que a sua visão já quase nada alcançava para além daquela cor leitosa que ia cobrindo até os seus pensamentos, as suas memórias.
Quando a porta do quarto se abriu compreendeu que já nada conseguia ver e quando tentou falar verificou, já sem espanto, que as palavras que tinha pensado se apagavam antes de as poder pronunciar.
Também a sua audição se ia perdendo sem hesitação, mesmo assim ainda conseguiu ouvir uma voz que lhe parecia vagamente familiar,
É verdade, este era o seu quarto, mas há já muitos anos que está vazio…
Abriu a janela e sentiu um ar frio, quase gelado, que se foi entranhando por todos os seus poros, até mais nada sentir que uma imensidão vazia que lhe ia preenchendo o corpo.
Sentiu-se desvanecer e percebeu que a sua visão já quase nada alcançava para além daquela cor leitosa que ia cobrindo até os seus pensamentos, as suas memórias.
Quando a porta do quarto se abriu compreendeu que já nada conseguia ver e quando tentou falar verificou, já sem espanto, que as palavras que tinha pensado se apagavam antes de as poder pronunciar.
Também a sua audição se ia perdendo sem hesitação, mesmo assim ainda conseguiu ouvir uma voz que lhe parecia vagamente familiar,
É verdade, este era o seu quarto, mas há já muitos anos que está vazio…
Histórias com Música (33)
Largar…
Deixá-los ir num despojamento sem retorno.
Saber fechar os olhos quando a vontade é mantê-los abertos e fixos naquele ponto que nunca queremos perder.
Conseguir baixar a cabeça e saber que, se a voltarmos a levantar, as coisas nunca mais serão as mesmas.
Saber que o sorriso que virá depois trará sempre consigo a dor que lhe associámos, quando decidimos deixá-los ir.
Deixar…
Sem saber como, nem porquê, ou até onde. Mas deixar. Abrir os braços e conseguir parar a tempo. Pelo menos até compreendermos que a estrada nunca terá fim.
Ouvir as vozes que sempre trouxemos connosco, mas que, por todas as razões, sempre ocultámos.
Decidir em definitivo. Saber que o fim está tão próximo que já não deixa dúvidas.
Ter, finalmente, consciência que todos os nossos erros já não importam aqui, porque, mesmo aqueles que ainda não o sabem, irão percorrer este mesmo caminho...
Deixá-los ir num despojamento sem retorno.
Saber fechar os olhos quando a vontade é mantê-los abertos e fixos naquele ponto que nunca queremos perder.
Conseguir baixar a cabeça e saber que, se a voltarmos a levantar, as coisas nunca mais serão as mesmas.
Saber que o sorriso que virá depois trará sempre consigo a dor que lhe associámos, quando decidimos deixá-los ir.
Deixar…
Sem saber como, nem porquê, ou até onde. Mas deixar. Abrir os braços e conseguir parar a tempo. Pelo menos até compreendermos que a estrada nunca terá fim.
Ouvir as vozes que sempre trouxemos connosco, mas que, por todas as razões, sempre ocultámos.
Decidir em definitivo. Saber que o fim está tão próximo que já não deixa dúvidas.
Ter, finalmente, consciência que todos os nossos erros já não importam aqui, porque, mesmo aqueles que ainda não o sabem, irão percorrer este mesmo caminho...
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Arcade e os grammys

Esta coisas das academias do cinema, da música e quejandos nunca me interessaram por aí além. Creio, aliás, que a mais valia que transporta consigo serve apenas para encher mais alguns bolsos. Foi por isso com algum espanto que vi os Arcade Fire ganharem o Grammy para o melhor álbum do ano.
Fiquei tão surpreendido como, penso, ficaram os membros da banda. E a apresentadora (aquela Streisand que costumava berrar em vez de cantar) ainda ficou mais, tanto que nem conseguia dizer o nome do disco
Afinal os plásticos nem sempre ganham e é bom saber que a boa música também se ouve nestes sítios.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
domingo, 13 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
O meu avô tinha uma garrafa (III)
(...)
O meu avô fumava com elegância. Mal se via o cigarro na sua mão e o fumo nem se cheirava. Até que deixou de fumar por completo.
Foi aí que lhe conheci a primeira doença. Asma.
Às vezes tossia tanto que lhe faltava a respiração.
Tinha uma bomba. Era uma coisa enorme, com um recipiente de vidro amarelado e um inalador, que ele usava frequentemente.
Isso dá-te cabo do coração, dizia-lhe a minha avó. Mas aliviava-o, disso tenho a certeza.
Na secretária do meu avô havia sempre jornais. Todos os jornais.
Foi aí que ganhei o hábito de os folhear. Foi a partir daí que comecei a ler.
Também tinha alguns livros.
O meu avô era uma figura.
Deram-me o seu nome.
Quando estava a começar a falar com ele e a compreendê-lo, partiu.
Morreu no dia em que fiz dezasseis anos.
Nunca mais vi a garrafa.
O meu avô fumava com elegância. Mal se via o cigarro na sua mão e o fumo nem se cheirava. Até que deixou de fumar por completo.
Foi aí que lhe conheci a primeira doença. Asma.
Às vezes tossia tanto que lhe faltava a respiração.
Tinha uma bomba. Era uma coisa enorme, com um recipiente de vidro amarelado e um inalador, que ele usava frequentemente.
Isso dá-te cabo do coração, dizia-lhe a minha avó. Mas aliviava-o, disso tenho a certeza.
Na secretária do meu avô havia sempre jornais. Todos os jornais.
Foi aí que ganhei o hábito de os folhear. Foi a partir daí que comecei a ler.
Também tinha alguns livros.
O meu avô era uma figura.
Deram-me o seu nome.
Quando estava a começar a falar com ele e a compreendê-lo, partiu.
Morreu no dia em que fiz dezasseis anos.
Nunca mais vi a garrafa.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
De TGV com Neil Hannon
Neil Hannon em versão Kraftwerk, ou uma viagem numa espécie de TGV disfarçado (e bem) de uma excelente peça musical!
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
O meu avô tinha uma garrafa (II)
(...)
Ao contrário do que era hábito na época e nesses locais, o meu avô estudou e quando casou com a minha avó já era sargento da guarda.
Saíram da aldeia e andaram pelo país, de posto em posto, até chegarem aqui. Por aqui ficaram.
A minha avó tinha muitos irmãos.
Era a mais nova de oito.
Os seus irmãos mais velhos envolveram-se em lutas, revoluções e golpes, naquela época em que estes eram férteis. Quando o país deixou de ter reis e passou a ter muitos presidentes.
De um dos irmãos teve um sobrinho que lhes recuperou o sentido da mudança e da revolta. Pelo meio do século foi preso e por lá ficou muito tempo. Até que morreu sem de lá sair.
O meu avô ia visitá-lo e por também pertencer a uma força da ordem, revoltou-se com o que via. Deixou de pertencer.
E depois acho que ficou mais calado.
Às vezes chamava-me rapazinho e eu não gostava nada do epíteto. Mais tarde percebi que era a sua maneira de ser carinhoso.
Nunca lhe vi um cabelo branco. Nunca lhe ouvi um queixume. Quase nunca lhe apercebi uma doença.
No verão, quando íamos para a praia, ele nunca ia.
Durante aquele mês visitava-nos um dia e ficava na amurada a contemplar o mar, mas nunca punha o pé na areia. Não dava jeito ir para a praia de fato e gravata.
Esse dia, em que nos visitava, era uma festa para mim. Apesar de pouco falar e de pouco sorrir, ele dava-me a mão e dizia, vamos lá rapazinho.
E íamos, entravamos na livraria e eu podia escolher um livro, o que quisesse.
Foi aí, quando ainda mal sabia ler, que escolhi a minha primeira banda desenhada, aquela que ainda hoje me acompanha.
(...)
Ao contrário do que era hábito na época e nesses locais, o meu avô estudou e quando casou com a minha avó já era sargento da guarda.
Saíram da aldeia e andaram pelo país, de posto em posto, até chegarem aqui. Por aqui ficaram.
A minha avó tinha muitos irmãos.
Era a mais nova de oito.
Os seus irmãos mais velhos envolveram-se em lutas, revoluções e golpes, naquela época em que estes eram férteis. Quando o país deixou de ter reis e passou a ter muitos presidentes.
De um dos irmãos teve um sobrinho que lhes recuperou o sentido da mudança e da revolta. Pelo meio do século foi preso e por lá ficou muito tempo. Até que morreu sem de lá sair.
O meu avô ia visitá-lo e por também pertencer a uma força da ordem, revoltou-se com o que via. Deixou de pertencer.
E depois acho que ficou mais calado.
Às vezes chamava-me rapazinho e eu não gostava nada do epíteto. Mais tarde percebi que era a sua maneira de ser carinhoso.
Nunca lhe vi um cabelo branco. Nunca lhe ouvi um queixume. Quase nunca lhe apercebi uma doença.
No verão, quando íamos para a praia, ele nunca ia.
Durante aquele mês visitava-nos um dia e ficava na amurada a contemplar o mar, mas nunca punha o pé na areia. Não dava jeito ir para a praia de fato e gravata.
Esse dia, em que nos visitava, era uma festa para mim. Apesar de pouco falar e de pouco sorrir, ele dava-me a mão e dizia, vamos lá rapazinho.
E íamos, entravamos na livraria e eu podia escolher um livro, o que quisesse.
Foi aí, quando ainda mal sabia ler, que escolhi a minha primeira banda desenhada, aquela que ainda hoje me acompanha.
(...)
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