quinta-feira, 15 de abril de 2010

Velocidades


Aceleramos.
Não sabemos onde está o travão, nem para que serve.
Avançamos com os olhos abertos, mas turvos, apesar de pensarmos que nunca vimos melhor.
À nossa volta tudo brilha, mas o brilho vem de uma luz artificial, que se pode apagar a qualquer momento e nunca mais voltar.
E ignoramos o local exacto do freio, porque teimamos em pensar que o caminho é sempre em frente e que nenhum escolho nos bloqueará.
Cegos de tanto olhar para um infinito que não existe, nunca descobrimos o travão porque preferimos avançar, avançar sempre.
Até que o motor acaba por se calar, não porque o desejássemos, mas porque o combustível simplesmente acabou e não há forma de reabastecer, porque não são admitidos recuos, marchas à ré, retrovisores.
É por isso que quem consegue parar na beira da estrada e sair do carro, percebe que as árvores existem, que o sol também brilha e que a velocidade não é uma qualidade, uma inevitabilidade, mas apenas um artifício que usamos para nos escondermos da vida

All Star (6)


quarta-feira, 14 de abril de 2010

PG em Londres, Março 2010



ENORME

histórias com música (29)

Caminho devagar, deixando que a luz da lua me banhe a memória e me ilumine, docemente, cada recordação que vai descendo, devagar, pelo silêncio que me rodeia.
O momento não é eterno, é mais efémero que um vento que já passou. Mas como tal, fica o seu sabor espalhado pela brisa que nunca desaparece.
Compraz-me saber que, afinal, o mundo não é daqueles que o governam, mas dos outros, dos que sabem e conseguem sonhar e ver para além do óbvio, mesmo que mais ninguém o saiba, mesmo que poucos acreditem.
É essa a herança que devemos passar.
Um breve passeio à luz do luar, por entres caminhos de terra, rodeados de árvores frondosas, onde se guardam todos os segredos do mundo e que só quem acredita poderá conhecer.
E o vento há-de soprar para aqueles que já lhe viram alma.
Só isso restará, depois do dilúvio…

All Star (5)

(...) - 17

(...)Este mar, que hoje conhecemos, mais não é que uma ínfima parte do todo que continua protegido num esplendor invisível que só alguns, poucos, têm o privilégio de conhecer.
Assim o guarde Neptuno.

A chuva parou. Volto a olhar para a rua na tentativa, vã, de a ver.
Tanta gente lá em baixo. Tanta confusão. Nem sinal dela.
Vi-a entrar no elevador mas continuo a sentir a sua presença, forte, do outro lado da porta.
Já passaram algumas horas desde que ela chegou, nem sei quantas. Não tenho relógios em casa.
Zanguei-me com eles. Há muitos anos que os despachei de vez.
Não gosto que mandem no meu tempo.
Também não tenho telefone e devo ser a única pessoa desta cidade que não tem telemóvel. Ligo-me através da televisão e de vez em quando da rede. No outro tempo não imaginava que o mundo, algo mundo pelo menos, pudesse estar assim tão perto de nós. Entretanto fui-me apercebendo que, afinal, esta proximidade só nos afasta daquilo que, aparentemente, é real.

Real?
E isso, o que é?
Sempre gostei de uma frase que, certa vez, li numa parede desta cidade.
Não vos inquieteis, é a realidade que se engana.
Muitas vezes penso nela a propósito de tudo e de nada e de cada vez, em cada situação, a vejo como sendo mais acertada.
Por isso tento não me inquietar. A realidade, todas as realidades, mesmos as virtuais, são passíveis de engano. Isso deixa-me muito mais descansado.
(...)

ainda faltam 4 jogos...


E o nervoso miudinho que nunca mais acaba...

terça-feira, 13 de abril de 2010

Obrigado Gabriel

Considero o último disco de Peter Gabriel uma obra sublime. Sou suspeito, já que não há trabalho de PG que eu não goste. De qualquer forma nestes covers, ou muito mais que isso, que PG nos resolveu oferecer, reside uma força, uma doçura, uma beleza, incomparáveis. Cada canção, cada momento de cada canção, leva-nos por caminhos que, antes, nem sonhávamos. Estou, agradecidamente, rendido a este disco.
Não vi, nem irei, muito provavelmente, ver, os poucos espectáculos que já deu e tem agendados, mas há gente boa por aí que nos partilha esse privilégio. Este é apenas um momento enorme, como decerto foram todos os minutos daquele concerto.
É bonito, não é?

Até que 31 de Maio chegue... (X)

The Divine Comedy num tributo à arte de Noel Coward,

(...) - 16

(...)A chuva está mais fraca agora. Um simples borriço.
Espreito a porta do prédio lá em baixo. Não a vejo sair.
A multidão lá fora vai-se acotovelando, procurando passar por todos os pequenos espaços ainda disponíveis.
Ao longe uma nuvem abre-se e deixa passar uma nesga de sol. A sua luz incide directamente na minha janela cegando-me. Fecho os olhos. Um breve calor apodera-se dos meus sentidos.
Recordo que era assim que gostava de estar na praia. Deitado numa sombra entre dois toldos e deixando que o sol, que passava nesse intervalo, me banhasse o rosto.
Nessa altura ria-me muito. E ia para o mar. O mar sempre me encantou. Uma massa infinita de prazer para todos os sentidos. Sobretudo para a vista.
Adoro ver o mar revolto no cimo de um promontório. Adoro saber que nele vivem os seres fantásticos que os descobridores portugueses enfrentaram nos idos de 500. Para mim o mar está guardado por muitos Adamastores que protegem todos os seus, verdadeiros, segredos.
(...)

All Star (4)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Malcom

Punk is not dead, apesar do Malcom ter morrido

terça-feira, 30 de março de 2010

Até que 31 de Maio chegue... (IX)

Mais uma divertida canção, que eu e os meus filhos, costumamos cantar em conjunto.

segunda-feira, 29 de março de 2010

(...) - 15

(...)Sinto movimento lá fora. Percebo que ela se levanta e ouço os seus passos a afastarem-se.
Estranho. Não pode estar a acontecer.
Espreito pelo olho mágico.
Ela está à porta do elevador. Vai-se embora!
Os meus olhos enchem-se de lágrimas e a figura dela, ao longe, parece desvanecer-se como o fade out de um filme a preto e branco, dos antigos. Melodrama de fim trágico.
Como aqueles que sempre me magoaram o coração, mas que nunca consegui deixar de ver. Os que me faziam chorar como se não houvesse salvação possível. Mas que eram, por outro lado, redentores. A mim que, afinal, nunca gostei de finais tristes.

O elevador parou e a porta abriu-se.
Ela olha para a minha porta e acena-me. Será um adeus?
Não pode ser. Ela nunca diz adeus.
No entanto entra no elevador. As portas fecham-se.
Corro à janela. A minha respiração ofegante embacia o vidro à minha frente.
(...)

All Star (3)