quarta-feira, 24 de março de 2010
Quo Vadis Portugal?
Será que neste país nada mais acontece para além dos ataques, contra ataques e defesas, mais ou menos atabalhoadas, contra e a favor de José Sócrates e a incerteza quanto à capacidade do Benfica em concretizar o sonho de tanta gente?
(...) - 12
(...)Estiquei as pernas. Percebi que, no lado de fora, ela tinha feito o mesmo. Parecíamos miméticos. Feitos um para o outro. Porque não? Pensei. De facto nunca tinha pensado nisso.
Ela ali estava, por mim, para mim. Eu não. Seria demasiado egoísmo? Era filho único, que é um outro nome para egoísta.
De repente o céu tornou-se mais escuro. Uma breve, mas forte, luminosidade acendeu-se. Logo depois surgiu o trovão. Forte e poderoso.
A casa estremeceu. Eu também. Lá fora ela também.
Nas noites de trovoada mal conseguia dormir. Não porque tivesse medo. Não tinha.
Ficava maravilhado. Com o poder dos trovões, com a atracção pelos relâmpagos. Com a vertiginosa capacidade natural em criar um espectáculo daquela dimensão. Tão belo. O mais bonito espectáculo do mundo.
E deixava-me ficar a admirar todo o esplendor da trovoada. Aquelas noites eram belas e poderosas.
Uma feiticeira única. Senhora do mundo. Dona de uma fantasia única. Aquela fantasia que vivia dentro dos contos de fadas de que eu tanto gostava.
(...)
Ela ali estava, por mim, para mim. Eu não. Seria demasiado egoísmo? Era filho único, que é um outro nome para egoísta.
De repente o céu tornou-se mais escuro. Uma breve, mas forte, luminosidade acendeu-se. Logo depois surgiu o trovão. Forte e poderoso.
A casa estremeceu. Eu também. Lá fora ela também.
Nas noites de trovoada mal conseguia dormir. Não porque tivesse medo. Não tinha.
Ficava maravilhado. Com o poder dos trovões, com a atracção pelos relâmpagos. Com a vertiginosa capacidade natural em criar um espectáculo daquela dimensão. Tão belo. O mais bonito espectáculo do mundo.
E deixava-me ficar a admirar todo o esplendor da trovoada. Aquelas noites eram belas e poderosas.
Uma feiticeira única. Senhora do mundo. Dona de uma fantasia única. Aquela fantasia que vivia dentro dos contos de fadas de que eu tanto gostava.
(...)
terça-feira, 23 de março de 2010
Até que 31 de Maio chegue... (VI)
E aqui vai mais outra, dedicada à sua filha e que eu, como pai galináceo que me prezo de ser, adoro.
(...) - 11
(...)Estendiam umas mantas no chão terroso e abriam umas caixas de madeira onde traziam talheres e pratos, copos e garrafas. Depois abriam outras caixas de onde saiam croquetes, rissóis e até um arroz de cabidela que vinha num termo para ficar quentinho.
E havia uma garrafa de vinho e outra de laranjada. BB era a marca, lembro-me bem. Bem Boa! E isso já não me lembro se era, eu bebia água.
Depois da sesta, à beira da estrada, lá seguíamos viagem. Rumo à aldeia de pedra, que era pobrezinha, mas bonita, e onde familiares me inundavam de beijos molhados, com hálitos de velhos de séculos e onde as casas de pedra eram mais frias que todos os invernos que eu conhecera.
Foi há tanto tempo. Apesar de tudo tinham sido agradáveis aquelas viagens e aqueles velhos sorridentes e baços que, afinal, hoje já não existem. Velhos como aqueles perderam-se no tempo. Hoje os velhos ficam em frente aos aparelhos de televisão, trocando os tempos que ainda têm, por visões de programas estupidificantes que lhes prometem horas de entretenimento, mas que lhes tiram a vida aos poucos. Alzheimers em directo e a cores.
(...)
E havia uma garrafa de vinho e outra de laranjada. BB era a marca, lembro-me bem. Bem Boa! E isso já não me lembro se era, eu bebia água.
Depois da sesta, à beira da estrada, lá seguíamos viagem. Rumo à aldeia de pedra, que era pobrezinha, mas bonita, e onde familiares me inundavam de beijos molhados, com hálitos de velhos de séculos e onde as casas de pedra eram mais frias que todos os invernos que eu conhecera.
Foi há tanto tempo. Apesar de tudo tinham sido agradáveis aquelas viagens e aqueles velhos sorridentes e baços que, afinal, hoje já não existem. Velhos como aqueles perderam-se no tempo. Hoje os velhos ficam em frente aos aparelhos de televisão, trocando os tempos que ainda têm, por visões de programas estupidificantes que lhes prometem horas de entretenimento, mas que lhes tiram a vida aos poucos. Alzheimers em directo e a cores.
(...)
segunda-feira, 22 de março de 2010
(...) - 10
(...)Lá fora a chuva continua a cair, agora mais miudinha, mas imparável.
Olho os vidros da janela e deixo que o meu olhar percorra os trilhos que as gotas vão desenhando ao deslizarem pelo vidro.
Era assim um jogo que costumava jogar quando, no banco de trás do carro de meu pai, íamos à terra. Não à minha terra, nem sequer à dele, que era a mesma que a minha, mas à dos seus pais. Que ficava lá longe, depois dos montes, dos vales, dos rios e riachos, das curvas e contracurvas, num outro mundo, longe da nossa cidade, longe daquele mundo que eu julgava nosso.
Demorávamos horas intermináveis para lá chegar.
As estradas eram estreitas, tinham buracos, desvios, curvas e mais curvas. Mas eram caminhos bonitos, com árvores a bordejá-los. Às vezes, quando a luz era pouca, podíamos ver um coelho a saltar, até uma raposa fugidia e o meu pai parava o carro e dizia, Viste? E eu olhava e dizia que sim, mesmo que não tivesse visto nada, porque sabia que lhe agrada. Animais selvagens que fugiam à frente do carro, assustados por aquele ronco surdo que os carros tinham naquela altura.
E parávamos depois à beira da estrada. Num espaço diminuto, onde cabíamos apertados uns contra os outros e contra o carro que nos protegia dos outros que por ali podiam passar, mas que nunca passavam.
E fazíamos aquilo que eles gostavam de chamar o piquenique.
(...)
Olho os vidros da janela e deixo que o meu olhar percorra os trilhos que as gotas vão desenhando ao deslizarem pelo vidro.
Era assim um jogo que costumava jogar quando, no banco de trás do carro de meu pai, íamos à terra. Não à minha terra, nem sequer à dele, que era a mesma que a minha, mas à dos seus pais. Que ficava lá longe, depois dos montes, dos vales, dos rios e riachos, das curvas e contracurvas, num outro mundo, longe da nossa cidade, longe daquele mundo que eu julgava nosso.
Demorávamos horas intermináveis para lá chegar.
As estradas eram estreitas, tinham buracos, desvios, curvas e mais curvas. Mas eram caminhos bonitos, com árvores a bordejá-los. Às vezes, quando a luz era pouca, podíamos ver um coelho a saltar, até uma raposa fugidia e o meu pai parava o carro e dizia, Viste? E eu olhava e dizia que sim, mesmo que não tivesse visto nada, porque sabia que lhe agrada. Animais selvagens que fugiam à frente do carro, assustados por aquele ronco surdo que os carros tinham naquela altura.
E parávamos depois à beira da estrada. Num espaço diminuto, onde cabíamos apertados uns contra os outros e contra o carro que nos protegia dos outros que por ali podiam passar, mas que nunca passavam.
E fazíamos aquilo que eles gostavam de chamar o piquenique.
(...)
domingo, 21 de março de 2010
sexta-feira, 19 de março de 2010
(...) - 9
(...)Lá fora a sirene duma ambulância soa estridente. Alguém aflito, penso. Um pai, uma mãe, um irmão de alguém.
Eu nunca tive irmãos. Passei uma infância sozinha. Sempre à espera que chegasse um irmão. A quem pudesse queixar-me. Com quem pudesse partilhar uns risos, umas bolachas, um pouco de televisão. Uns tabefes, até.
Mas ele nunca chegou. Faltam-me irmãos.
Dizem-me, alguns que os têm, que não fazem falta. São empecilhos, partilhas forçadas. Carne da mesma carne, sangue do mesmo sangue, mas interesses de outros interesses. Não interessam.
Não sei se hei-de acreditar. Ainda hoje, quando sei que nenhum irmão irá chegar, fico sentado à espera que chegue. Que me diga Olá sou o teu irmão, vamos brincar?
Sentado horas a fio, à espera que isso aconteça.
Tal como estou sentado agora. Mas agora não sei o que espero. Nem desespero.
Ela também não. Sinto-a sossegada do lado de fora. Tão sossegada que parece dormir. Mas eu sei que não está.
Ao mínimo ruído todos os seus sentidos despertam. Viajam por onde for necessário para que eu não fique sem ajuda.
Eu, que nem a mim próprio consigo ajudar.
Eu nunca tive irmãos. Passei uma infância sozinha. Sempre à espera que chegasse um irmão. A quem pudesse queixar-me. Com quem pudesse partilhar uns risos, umas bolachas, um pouco de televisão. Uns tabefes, até.
Mas ele nunca chegou. Faltam-me irmãos.
Dizem-me, alguns que os têm, que não fazem falta. São empecilhos, partilhas forçadas. Carne da mesma carne, sangue do mesmo sangue, mas interesses de outros interesses. Não interessam.
Não sei se hei-de acreditar. Ainda hoje, quando sei que nenhum irmão irá chegar, fico sentado à espera que chegue. Que me diga Olá sou o teu irmão, vamos brincar?
Sentado horas a fio, à espera que isso aconteça.
Tal como estou sentado agora. Mas agora não sei o que espero. Nem desespero.
Ela também não. Sinto-a sossegada do lado de fora. Tão sossegada que parece dormir. Mas eu sei que não está.
Ao mínimo ruído todos os seus sentidos despertam. Viajam por onde for necessário para que eu não fique sem ajuda.
Eu, que nem a mim próprio consigo ajudar.
quinta-feira, 18 de março de 2010
quarta-feira, 17 de março de 2010
Pérez-Reverte e Tintin

Voltei a Pérez- Reverte. Gosto da forma como escreve, como descreve, como encanta. É daqueles escritores que sabe escolher as palavras exactas, sabe construir a frases certas e sabe dar-nos a emoção e o prazer que queremos sentir.
Tenho vindo a descobri-lo, talvez tardiamente, mas muito a tempo de me deixar enlear pelas coisas belas que me oferece.
Agora leio o Cemitério dos Barcos Sem Nome e, para além da evidente capacidade encantatória que o mesmo me vai transmitindo, com o seu marinheiro anti-herói e a sua heroína misteriosa com nome africano, reparei que, pela voz da protagonista, Reverte, tal como eu, também gostou do mar que descobriu nas páginas de Tintin. Na referência a esta página de O Tesouro de Rackham o Terrível, descreveu, exactamente, a mesma sensação que eu tive quando a vi pela primeira vez.
Obrigado Reverte, pela tua escrita e por me recordares que é na infância que recolhemos o melhor da vida.
Até que 31 de Maio chegue... (IV)
E continuamos nesta caminhada de Neil Hnnon pelo belo. Hoje, dia de S. Patricio, com uma canção dedicada à sua Irlanda natal.
(...) - 8
(...)Como aquelas que ouvíamos todos os dias. Em que as palavras são desbravadas sem dó nem piedade. Amazónias virgens destruídas pela insensibilidade das pessoas.
Sempre acreditei que só devíamos falar quando conseguíssemos respeitar cada palavra, cada sílaba, cada letra.
São um bem raro, as palavras, embora ninguém pareça aperceber-se disso.
Cada palavra dita sem significado, sem querer, sem vontade, é menos uma que poderá ser aproveitada por quem, verdadeiramente, as ama.
A palavra é o bem mais precioso de toda a humanidade.
Tantos livros que são escritos sem respeito pela palavra. Sempre pensei que só se deviam escrever os livros necessários. Nem mais um.
Tanto desperdício.
Quando era criança olhava os livros que estavam na estante do meu avô e ficava horas perdidas pensando no que estaria lá dentro. Não me atrevia a pegar-lhes com medo que as palavras voassem e não voltassem a habitar aqueles livros.
Cada palavra perdida não poderia ser mais encontrada. Ou então ia misturar-se com as de outro livro e tudo aquilo que queria dizer ficaria perdido para sempre.
Por isso não lhes pegava. Olhava-os apenas e sabia que assim estariam protegidos. Os livros não são para se estragar, mesmo aqueles que já nascem estragados.
Por isso nunca me atrevi a escrever.
(...)
Sempre acreditei que só devíamos falar quando conseguíssemos respeitar cada palavra, cada sílaba, cada letra.
São um bem raro, as palavras, embora ninguém pareça aperceber-se disso.
Cada palavra dita sem significado, sem querer, sem vontade, é menos uma que poderá ser aproveitada por quem, verdadeiramente, as ama.
A palavra é o bem mais precioso de toda a humanidade.
Tantos livros que são escritos sem respeito pela palavra. Sempre pensei que só se deviam escrever os livros necessários. Nem mais um.
Tanto desperdício.
Quando era criança olhava os livros que estavam na estante do meu avô e ficava horas perdidas pensando no que estaria lá dentro. Não me atrevia a pegar-lhes com medo que as palavras voassem e não voltassem a habitar aqueles livros.
Cada palavra perdida não poderia ser mais encontrada. Ou então ia misturar-se com as de outro livro e tudo aquilo que queria dizer ficaria perdido para sempre.
Por isso não lhes pegava. Olhava-os apenas e sabia que assim estariam protegidos. Os livros não são para se estragar, mesmo aqueles que já nascem estragados.
Por isso nunca me atrevi a escrever.
(...)
terça-feira, 16 de março de 2010
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