(...)A chuva continuava a ensopar os vidros. Inclemente. Mais forte.
O vento começava o seu canto monótono. Um assobio fraco que se ia multiplicando nos meus ouvidos e não me deixava pensar. Como naquelas tardes de Inverno de há muitos anos, quando olhava o céu escuro e ouvia o vento que batia no alto das árvores que sobreviviam logo à saída de nossa casa.
Costumava tentar decifrar a voz do vento. Ouvia as suas canções e percebia os seus lamentos. Guardava-os para mim, pensando que, no futuro, os iria aproveitar e iria escrever aquelas histórias que o vento me contava.
Nunca o fiz.
Talvez por tê-las esquecido, talvez por nunca as ter compreendido verdadeiramente.
Agora tinham voltado. Era a mesma voz. O mesmo lamento.
Só eu tinha crescido. Envelhecido. E o que ouvia agora estava mascarado com muitos anos de vida. Falta-me a inocência que nos faz acreditar na natureza. Mas sei que ainda posso ouvir o vento e saber as novas que ele me traz.
Sentei-me.
Sabia que ela também o tinha feito do outro lado da porta.
Quis chamá-la, mas a voz ficou-me embargada. Não saía um único som da minha garganta.
Ouvi-a mexer-se. Percebi que me tinha percebido.
Os nossos silêncios, mesmo à distância, eram mais esclarecedores que muitas conversas inúteis.
(...)
terça-feira, 16 de março de 2010
sexta-feira, 12 de março de 2010
Graças a Deus é sexta feira
E porque é, já, sexta e porque o weekend está á porta, aqui fica alguma coisa que o vai, certamente, alegrar.
(...) - 6
(...)Ela já nem tocava a campainha. Nem batia à porta.
Sabia-me ali, do outro lado. E esperava. Com a paciência de quem tem todo o tempo do mundo e sabe que os destinos são para se cumprir.
Eu fitava-a, sabendo que tudo ela sabia. Mas sem coragem para lhe ver os olhos profundos. Sem coragem para abrir a boca e deixar sair tudo aquilo que se ia engarrafando na minha garganta.
Um grito formou-se então, prestes a sair. Como daquela vez em que nos mascarámos de índios e viemos para a rua com arcos, flechas e pinturas coloridas nas faces.
Nem sequer era Carnaval, mas isso não importava. Éramos Sioux, ou Comanches, ou Apaches. Gerónimo era o grito e nem 20 cavalarias nos conseguiriam deter.
Era assim a nossa infância.
Povoada de mil aventuras. Porque a nossa rua era um mundo ainda por desbravar. Em que cada dia surgia novo, com todas as horas por descobrir. E nós nem sabíamos o que era o tempo, porque na nossa ânsia de viver, cada minuto tinha o sabor de uma vida inteira.
Como agora. Agora já não sabíamos o que era o tempo. Porque estávamos os dois parados.
Eu do lado de dentro. Ela do lado de fora.
Ela esperando que eu abrisse a porta. Eu esperando que ela me esperasse.
Eu sabia, ela também, que não haveria outro caminho.
E só uma porta pelo meio. Que parecia tão pouco. Mas que era tanto.
(...)
Sabia-me ali, do outro lado. E esperava. Com a paciência de quem tem todo o tempo do mundo e sabe que os destinos são para se cumprir.
Eu fitava-a, sabendo que tudo ela sabia. Mas sem coragem para lhe ver os olhos profundos. Sem coragem para abrir a boca e deixar sair tudo aquilo que se ia engarrafando na minha garganta.
Um grito formou-se então, prestes a sair. Como daquela vez em que nos mascarámos de índios e viemos para a rua com arcos, flechas e pinturas coloridas nas faces.
Nem sequer era Carnaval, mas isso não importava. Éramos Sioux, ou Comanches, ou Apaches. Gerónimo era o grito e nem 20 cavalarias nos conseguiriam deter.
Era assim a nossa infância.
Povoada de mil aventuras. Porque a nossa rua era um mundo ainda por desbravar. Em que cada dia surgia novo, com todas as horas por descobrir. E nós nem sabíamos o que era o tempo, porque na nossa ânsia de viver, cada minuto tinha o sabor de uma vida inteira.
Como agora. Agora já não sabíamos o que era o tempo. Porque estávamos os dois parados.
Eu do lado de dentro. Ela do lado de fora.
Ela esperando que eu abrisse a porta. Eu esperando que ela me esperasse.
Eu sabia, ela também, que não haveria outro caminho.
E só uma porta pelo meio. Que parecia tão pouco. Mas que era tanto.
(...)
quinta-feira, 11 de março de 2010
(...) - 5
(...)Olhei outra vez pelo olho mágico. Ela continuava ali, expectante.
Eu sabia que ela não desertaria. Ficaria ali, esperando, até que eu abrisse a porta.
Indefesa. Como uma criança. O seu olhar era o de uma criança.
Como aquele de que me lembro agora, quando me fitava ao espelho lá de casa. Daquela casa antiga, com quintal. Onde gostava de brincar. Onde criava o mundo que queria conhecer. Longe do outro, daquele que me davam todos os dias, mas que eu não queria abraçar.
Naquele quintal eu inventava, que digo eu, criava! Dali até ao infinito. O quintal tornava-se gigante, povoado de fantasias, que de tão reais se confundiam com os meus desejos mais recônditos, ali plasmados, ao alcance da minha mão, transformados em realidades que não queria perder.
Pequenos soldadinhos de plástico em castelos feitos de tijolos, jogos de futebol sem fim, com os jogadores que eu escolhia, com vitórias que eram sempre certas, porque só cabiam no espaço que eu permitia.
Estradas imensas, onde caminhos coloridos se espraiavam até onde a vista alcançava.
Amigos reais, tão reais que só eu os via.
E, na hora do lanche, aquela voz doce de todos os dias que acalmava intempéries, que sabia ser a certa, aquela que só as certezas indubitáveis é capaz de produzir.
Mas isso estava tão longe agora. Tão longe que só uma visão extra-longa podia alcançar. Com dificuldade.
(...)
Eu sabia que ela não desertaria. Ficaria ali, esperando, até que eu abrisse a porta.
Indefesa. Como uma criança. O seu olhar era o de uma criança.
Como aquele de que me lembro agora, quando me fitava ao espelho lá de casa. Daquela casa antiga, com quintal. Onde gostava de brincar. Onde criava o mundo que queria conhecer. Longe do outro, daquele que me davam todos os dias, mas que eu não queria abraçar.
Naquele quintal eu inventava, que digo eu, criava! Dali até ao infinito. O quintal tornava-se gigante, povoado de fantasias, que de tão reais se confundiam com os meus desejos mais recônditos, ali plasmados, ao alcance da minha mão, transformados em realidades que não queria perder.
Pequenos soldadinhos de plástico em castelos feitos de tijolos, jogos de futebol sem fim, com os jogadores que eu escolhia, com vitórias que eram sempre certas, porque só cabiam no espaço que eu permitia.
Estradas imensas, onde caminhos coloridos se espraiavam até onde a vista alcançava.
Amigos reais, tão reais que só eu os via.
E, na hora do lanche, aquela voz doce de todos os dias que acalmava intempéries, que sabia ser a certa, aquela que só as certezas indubitáveis é capaz de produzir.
Mas isso estava tão longe agora. Tão longe que só uma visão extra-longa podia alcançar. Com dificuldade.
(...)
quarta-feira, 10 de março de 2010
Até que 31 de Maio chegue... (I)
Como dissemos há dois posts abaixo, os Divine estão de regresso. Para comemorar o facto e porque ouvi-los e reouvi-los é sempre um prazer, vamos começar hoje a recordar as suas enormíssimas canções.
Começamos com esta:
Começamos com esta:
(...) - 4
(...)Voltou a bater à porta. Desta vez soou mais alto.
Já sabia que eu estava ali logo atrás daquela porta que nos evitava os olhares, embora ambos soubéssemos que nos víamos mesmo assim.
Tentei pigarrear para fazer a pergunta da praxe, desnecessária.
Não consegui dizer nada. Ela, no entanto, disse o meu nome.
Eu gosto de ouvir o meu nome. Fico nostálgico. Volto a uma infância longínqua, quando o meu nome era dito por vozes doces, com tonalidades que iam do chocolate com leite até tangerinas sumarentas que refrescavam as, ainda quentes, noites de um Outono recente.
Desde essa altura que já ninguém dizia assim o meu nome. Até que a ouvi pela primeira vez. Nela, o meu nome, tinha o sabor de cerejas. Muito vermelhas e muito escuras, daquelas que não conseguimos parar de comer.
Era isso, o meu nome eram cerejas na sua boca.
(...)
Já sabia que eu estava ali logo atrás daquela porta que nos evitava os olhares, embora ambos soubéssemos que nos víamos mesmo assim.
Tentei pigarrear para fazer a pergunta da praxe, desnecessária.
Não consegui dizer nada. Ela, no entanto, disse o meu nome.
Eu gosto de ouvir o meu nome. Fico nostálgico. Volto a uma infância longínqua, quando o meu nome era dito por vozes doces, com tonalidades que iam do chocolate com leite até tangerinas sumarentas que refrescavam as, ainda quentes, noites de um Outono recente.
Desde essa altura que já ninguém dizia assim o meu nome. Até que a ouvi pela primeira vez. Nela, o meu nome, tinha o sabor de cerejas. Muito vermelhas e muito escuras, daquelas que não conseguimos parar de comer.
Era isso, o meu nome eram cerejas na sua boca.
(...)
E agora uma excelente noticia
A indigestão do dragão
Antecipando a viagem a Londres, onde cinco chuvadas grossas encharcaram o dragãozito, o Henrique Monteiro ofereceu-nos mais uma excelente (e acertada) previsão.
terça-feira, 9 de março de 2010
(...) - 3
(...)Aquela que a levara até ali, sem perguntas, sem reclamações, pronta escutar, dar a mão, ser amiga e levar-me com ela, porque no fundo era nisso que tudo se resumia.
Continuei a olhá-la pelo olho mágico. Substitui a visão da janela alagada, pela dela, igualmente alagada, olhando para mim através da solidez daquela porta.
Sim, porque eu sabia que ela me podia ver através da porta. E de todas as paredes, à distância de uns breves metros ou mesmo com oceanos pelo meio.
Nem precisava de falar para ela me perceber. Aliás, sem ela eu não conseguia descodificar-me. Por isso a tinha chamado ali.
Para ver se me entendia. Sobretudo para ver se ainda conseguia falar. Para verificar se todas as palavras não tinham ficado secas na minha garganta.
Ela era uma espécie de saca-rolhas de todas as garrafas que trazia escondidas dentro de mim e que, naturalmente, não me deixavam respirar, tornando-me frágil como uma pequena peça de cristal, daquele tão puro que se poderia estilhaçar apenas com a expressão de um pensamento mais forte.(...)
Continuei a olhá-la pelo olho mágico. Substitui a visão da janela alagada, pela dela, igualmente alagada, olhando para mim através da solidez daquela porta.
Sim, porque eu sabia que ela me podia ver através da porta. E de todas as paredes, à distância de uns breves metros ou mesmo com oceanos pelo meio.
Nem precisava de falar para ela me perceber. Aliás, sem ela eu não conseguia descodificar-me. Por isso a tinha chamado ali.
Para ver se me entendia. Sobretudo para ver se ainda conseguia falar. Para verificar se todas as palavras não tinham ficado secas na minha garganta.
Ela era uma espécie de saca-rolhas de todas as garrafas que trazia escondidas dentro de mim e que, naturalmente, não me deixavam respirar, tornando-me frágil como uma pequena peça de cristal, daquele tão puro que se poderia estilhaçar apenas com a expressão de um pensamento mais forte.(...)
domingo, 7 de março de 2010
Graças a Deus é sexta feira
Pois foi, na passada 6ª esqueci-me de postar a música que tinha prometido trazer aqui todas as sextas.
Por isso, mesmo sendo já domingo e o fim de semana esteja quase a acabar, deixo aqui mais esta canção agradável para que o domingo à noite seja mais ligeiro.
Por isso, mesmo sendo já domingo e o fim de semana esteja quase a acabar, deixo aqui mais esta canção agradável para que o domingo à noite seja mais ligeiro.
quinta-feira, 4 de março de 2010
O outro PS
Outra vez as canções mais bonitas
Porque já há algum tempo que não os revisitava e porque o prazer é sempre acrescido, aqui voltamos a ouvir as canções mais bonitas.
Pré- Beatles
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