Aquele ano foi de Paulo de Carvalho. A sua canção canção ganhou, merecidamente, contornos de hino à liberdade e as outras foram ficando esquecidas. Algumas injustamente, como esta, que não sendo um verdadeiro primor, ainda hoje arranca uns assobios bem dispostos. Já agora, para além do single do E Depois do Adeus, também este faz parte da minha memorabilia festivaleira.
Ia descendo calmamente pela rua. Era noite. Estava escuro. O silêncio era total. Parou, escutando a voz do silêncio. Ouviu o que lhe dizia. Entendeu o que lhe contou. Sorriu. Olhou em volta e viu-os voar por sobre a sua cabeça. Eram tantos. Abriu os braços e eles pousaram-se neles. Elevaram-no. Ele deixou-se ir. Ondulando pelo manto negro que se ia abrindo à sua passagem. Quando chegaram lá bem alto disse-lhes que parassem. Assim fizeram. Agora, disse ele. Largaram-no. Num turbilhão de sons e memórias, ele desceu vertiginosamente. Au revoir, murmurou, e com um sorriso sincero, aberto, fechou os olhos…
E provoca impotência. E causa grande dependência. E é causa de cancro. E diminui a quantidade de espermatozóides. E prejudica-a (e ao seu filho) se estiver grávida. E imensas outras coisas horríveis. Por isso aconselhe-se com o seu médico, ou farmacêutico, para deixar de o praticar.
Claro. Como uma manhã de sol, límpida, sem uma nuvem a assomar, sem um sopro de malícia a espreitar. Silencioso. Como uma mudez consentida, sem dor. Esperançoso. Como o amanhã que se segue, sem dúvidas. Vagaroso. Como a lentidão que se deseja, sem pressas. Sorridente. Como as vozes que nos chegam de mundos que só nós sabemos reconhecer. Surpreendente. Como são todos os dias. Se os deixarmos vir claros, silenciosos, esperançosos, vagarosos, sorridentes. Sem surpresas…
Lembro-me bem de todas as gargalhadas, de todos os choros. Das promessas, das quebras, dos azeites e dos deleites. Lembro-me de te ver chegar, de te ver acordar, embalar, correr e partir também. Das surpresas, das arrelias, de todas as noites e também dos dias. De subir a mil luas e de descer a alguns infernos também. Dos dias soalheiros e das tempestades inesperadas. Das luas brilhantes e das noites sem som. Das corridas desenfreadas, das lentidões mansas de quem não tem pressa. Das birras gritadas e dos sorrisos partilhados. Dos caminhos sinuosos, das curvas apertadas, mas também das estradas luminosas sem obstáculos. Lembro-me de tanto e de tão pouco também. Do tanto que já passou e do outro tanto que ainda falta chegar.
Porque as guerras, todas as guerras, são baseadas na ignorância, na ganância, na dor e no sofrimento. Porque as guerras, todas as guerras, não têm outra finalidade senão a morte, o desespero e a devastação, aqui fica um grito, uma canção, uma obra, que nos mostra alguma esperança em que a humanidade não se deixe levar por esses caminhos, mesmo que alguns iluminados nos queiram fazer crer que há coisas mais importantes que a vida. Do fundo dos anos 60, do flower power, da utopia hippie, para que nunca a ignorância e o esquecimento vinguem, deixemos que o sol continue a brilhar:
Ó Sócrates, Ó Cavaco, Ó Crespo, Ó Manela, ó vocês todos, ponham mas é os olhos nisto. Isto sim eram tempos gloriosos, em que o amanhã era duvidoso, em que se politicava sem rede, sempre à beira do abismo. Olhem, vejam, aprendam e deixem-nos em paz com as vossas dúvidas e artimanhas rascas. É que nem foi assim há tanto tempo.