Lá está ela a cantar outra vez. Muito canta ela.
E desta canção não gosto nada, porque será que insiste?
Também não sei como hei-de reclamar. Talvez se bater os pés ela perceba e se cale.
Eu gosto da sua voz. Muito até.
Mesmo quando fala baixinho e me diz coisas que não compreendo, mas que gosto de ouvir.
Imagino a sua cara. Deve ser bonita. Pelo menos a julgar pela voz.
Também já a ouvi gritar, chateada. Não comigo, é certo. Acho eu…
Às vezes ele também canta. Desafina muito e tem uma voz horrível. Mas acho que tem boa vontade e as canções que canta são as mais engraçadas. Pelo menos fazem-me rir, embora não saiba bem se me rio das canções ou da maneira de como ele as canta.
O que interessa é que me divirto.
Oiçam, ela recomeçou a cantar. Esta é nova.
E ele canta também.
Em coro.
É muito bonita esta. Parece que falam de mim. E dela. E dele também. De nós.
É bem bonita.
Oiçam…
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
O bife de Lisboa
A fruta tripeira
Sá Pinto strikes again

«Incidente grave entre Sá Pinto e Liedson
Dirigente e goleador "pegaram-se" depois do encontro; Reacção oficial para hoje.
Segundo A BOLA apurou, o mal-estar entre ambos — partilharam o banco do Sporting — instalou-se ainda durante o jogo. Sá Pinto não terá gostado de uma observação feita pelo levezinho e a situação ficou bastante tensa. Finalizado o encontro, novo dito de Liedson provocou a ira de Sá Pinto, tendo-se então verificado cenas impróprias, que levaram a que Carlos Carvalhal chegasse bastante atrasado à conferência de imprensa.(...)»
Será que o Sá Pinto viu no Liedson uma espécie de reencarnação do Artur Jorge, ou é só mesmo o seu bom feitio?
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
histórias com música (16)
A sua disposição era péssima.
O céu acompanhava-o, escurecendo à medida que ele ia passando.
Os olhos pregados no chão, as mãos inertes, pendiam mortas ao longo do corpo. Cada passo mais difícil.
O céu escuro acompanhava-o, deixando que pingos grossos lhe marcassem o caminho.
Já não se lembrava da luz, nem de ver outras cores para além do cinzento-escuro e do breu que lhe acompanhavam as horas.
Não via ninguém, ninguém o via. Não falava com ninguém, ninguém falava com ele. Evitavam-no porque dele só emanava tristeza.
Naquele dia, no entanto, alguém reparou no homem cinzento e parou a olhá-lo. Ele nem se deu conta, continuando a caminhar indiferente a tudo e a todos.
Até que lhe tocaram no ombro e ele num sobressalto parou. Levantou a cabeça e uma forte luz obrigou-o a fechar os olhos.
- Olá – disseram-lhe.
Ele não conseguia ouvir as palavras, mas sentiu que um calor inabitual o começava a inundar.
Quando, finalmente, abriu os olhos, sentia-se mais quente, confortável e percebeu que o céu também podia ser azul.
O céu acompanhava-o, escurecendo à medida que ele ia passando.
Os olhos pregados no chão, as mãos inertes, pendiam mortas ao longo do corpo. Cada passo mais difícil.
O céu escuro acompanhava-o, deixando que pingos grossos lhe marcassem o caminho.
Já não se lembrava da luz, nem de ver outras cores para além do cinzento-escuro e do breu que lhe acompanhavam as horas.
Não via ninguém, ninguém o via. Não falava com ninguém, ninguém falava com ele. Evitavam-no porque dele só emanava tristeza.
Naquele dia, no entanto, alguém reparou no homem cinzento e parou a olhá-lo. Ele nem se deu conta, continuando a caminhar indiferente a tudo e a todos.
Até que lhe tocaram no ombro e ele num sobressalto parou. Levantou a cabeça e uma forte luz obrigou-o a fechar os olhos.
- Olá – disseram-lhe.
Ele não conseguia ouvir as palavras, mas sentiu que um calor inabitual o começava a inundar.
Quando, finalmente, abriu os olhos, sentia-se mais quente, confortável e percebeu que o céu também podia ser azul.
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Um grande e vermelho sorriso
histórias com música (15)
Falta-lhe o ar…
Quando, com os olhos fechados, estende a mão e não consegue alcançar.
Quando, de braços abertos, dá um passo em frente e não consegue chegar.
Sente a brisa…
Quando, de olhos fechados, se deixa enlevar.
Quando, de braços abertos, se deixa conquistar
Voa…
Quando, de olhos abertos, vê todo o mundo iluminado à sua volta
Quando, de braços apertados, sente todo o mundo dentro de si.
Se o vento soprar de feição, nada será em vão…
Quando, com os olhos fechados, estende a mão e não consegue alcançar.
Quando, de braços abertos, dá um passo em frente e não consegue chegar.
Sente a brisa…
Quando, de olhos fechados, se deixa enlevar.
Quando, de braços abertos, se deixa conquistar
Voa…
Quando, de olhos abertos, vê todo o mundo iluminado à sua volta
Quando, de braços apertados, sente todo o mundo dentro de si.
Se o vento soprar de feição, nada será em vão…
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
histórias com música (14)
Não gostava muito de música, ou pelo menos pensava isso.
Não tinha gira-discos, nem leitor de cd’s. Não fazia ideia do que era um ipod e nunca tinha ouvido falar de mp3.
Nunca tinha assistido a um concerto, entrado numa discoteca, quase não ouvia rádio, nem via televisão.
Queimava os dias, uns atrás dos outros, sem se aperceber que havia coisas muito belas que desconhecia. Tinha um lema escondido, o que se desconhece, nunca apetece.
Sabia que lhe faltavam coisas, mas não fazia ideia que coisas eram. Ia errando pela vida ao sabor do que lhe traziam os dias. Dias que lhe eram pequenos, porque assim os queria.
Não se sentia alegre, nem sequer triste, era um ser quase metálico, onde as emoções esbarravam sem encontrar porta de entrada.
Um dia descobriu que estava sol, abriu então a janela do seu quarto e viu pessoas. Nas outras janelas de outros quartos, na rua, nas varandas, no cimo das árvores e ouviu um som que ia subindo pelas ruas.
Música?
Sentiu algo que não conhecia.
Música? É assim a música?
Debruçou-se mais. Viu que as pessoas batiam palmas, algumas dançavam e viu que estavam contentes.
Um sorriso envergonhado subiu-lhe ao rosto. Sentia-se diferente. Bem.
Estava quase alegre.
Foi então que soltou uma sonora e sincera gargalhada, no exacto momento em que a banda passou debaixo da sua janela…
Não tinha gira-discos, nem leitor de cd’s. Não fazia ideia do que era um ipod e nunca tinha ouvido falar de mp3.
Nunca tinha assistido a um concerto, entrado numa discoteca, quase não ouvia rádio, nem via televisão.
Queimava os dias, uns atrás dos outros, sem se aperceber que havia coisas muito belas que desconhecia. Tinha um lema escondido, o que se desconhece, nunca apetece.
Sabia que lhe faltavam coisas, mas não fazia ideia que coisas eram. Ia errando pela vida ao sabor do que lhe traziam os dias. Dias que lhe eram pequenos, porque assim os queria.
Não se sentia alegre, nem sequer triste, era um ser quase metálico, onde as emoções esbarravam sem encontrar porta de entrada.
Um dia descobriu que estava sol, abriu então a janela do seu quarto e viu pessoas. Nas outras janelas de outros quartos, na rua, nas varandas, no cimo das árvores e ouviu um som que ia subindo pelas ruas.
Música?
Sentiu algo que não conhecia.
Música? É assim a música?
Debruçou-se mais. Viu que as pessoas batiam palmas, algumas dançavam e viu que estavam contentes.
Um sorriso envergonhado subiu-lhe ao rosto. Sentia-se diferente. Bem.
Estava quase alegre.
Foi então que soltou uma sonora e sincera gargalhada, no exacto momento em que a banda passou debaixo da sua janela…
Vamos à la playa
"Na apresentação de mais um estudo sobre o impacto do projecto de alta velocidade no sector do turismo, o ministro das Obras Públicas reiterou que Portugal pode vir a beneficiar «bastante» com o TGV, sublinhando que Lisboa pode mesmo «transformar-se na praia de Madrid»."

Ao que parece, nuestros hermanos, nem quiseram ouvir mais nada...

Ao que parece, nuestros hermanos, nem quiseram ouvir mais nada...
Deus ou Diabo ?

“Quanto ao Diabo, não passa da dor de Deus.” *
Que dizer então deste nosso mundo?
Deus há-de estar cheio de dores. Talvez mesmo moribundo; não sabendo bem onde começa uma dor, ou onde acaba a anterior.
Isto se quisermos acreditar que o mal é provocado por aquilo a que nos habituámos apelidar de diabólico, satânico, demoníaco e por aí fora.
“que provas temos de que no combate entre o bem e o mal, entre Deus e o Diabo, ganhou o primeiro?”**
“A história [é sempre, ou quase] contada do lado dos vencedores.”*
* Clube Dumas (Arturo Pérez-Reverte)
** A Cidade sem Tempo (Enrique Moriel)
histórias de Rosa Branca

XXII
Apesar de ser impossível, parecia-lhe mais velho hoje. Pelo menos mais cansado, o que era, igualmente, uma impossibilidade, ou, pelo menos assim julgava.
Como habitualmente o Velho não lhe falava, bastava estarem ali, um em frente ao outro, deixando que os olhos se revelassem, para tudo compreenderem.
Hoje havia uma espécie de neblina entre eles, os olhos do Velho não estavam tão legíveis como das outras vezes. Com alguma dificuldade lá foi detectando as suas preocupações, percebendo os seus avisos, embora, sinceramente, não os entendesse.
Das primeiras vezes, sim, tinha sido difícil lá chegar, mas com o tempo, a experiência e a cumplicidade entretanto criada, aquela forma peculiar de comunicação já não lhe oferecia dificuldades.
Hoje, no entanto, era diferente. Percebeu que o Velho continha em si alguma dose de sofrimento, isso era patente, ouvia-lhe as lamúrias e os avisos, mas não sabia como actuar, o que fazer, não conhecia o próximo passo.
O tempo estava, contudo, a passar. O Velho desvaneceu-se na bruma e Zacarias ficou imóvel, olhando o espaço vazio à sua frente e sentindo-se quase impotente para seguir. E o quase aqui tem uma importância suplementar, porque breves instantes após, Zacarias percebeu o que tinha que fazer, pelo menos era a única solução que tinha encontrado para aquilo que entendera do Velho.
Olhou então em frente e começou a caminhar.
(continuará)
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