quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Memórias com leite quente


Lembro-me daquelas tardes frias de Invernos felizes, quando me sentava à mesa da sua cozinha, cuja pedra exibia, sempre, uma brancura imaculada.
Lembro-me da sua voz quente e doce, com um leve sotaque da Beira Baixa, que sempre me fascinou. Os seus olhos muito azuis reflectiam-se nos meus, que sorriam por a ter ali.
Então chegava aquele enorme pão com um queijo beirão que me sabia tão bem e uma caneca de leite quente, que servia como tónico para o que restava do dia.
A noite já não tardava, o dia ia chegando ao seu fim, mas nada disso era desanimador, pelo contrário, eu estava seguríssimo que no dia seguinte a cena se iria repetir e que se repetiria para sempre.
Feliz é a doce ignorância infantil…

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Lello


Entremos em silêncio.
Deixemos que a magia nos inunde.
São assim os templos onde moram as letras.
São assim as escadas que nos podem levar à sabedoria.
Saibamos merecê-los.

Ouvindo Pereira (obrigado Tabucchi)


Vivemos vidas recatadas, presas a convicções, ou a convenções, de todo o modo presas, de mãos atadas, à espera de uma qualquer redenção que teima em não chegar.
Quase sem darmos por isso, perdemo-las assim. Nunca chegamos a saber o seu significado. Vamos indo. Se Deus quiser.
Uma bofetada aqui e ali pode servir para abrir um olho, com sorte os dois e ver para além do evidente. Ou não…
O bom povo afirma, não sei se convictamente, que mais vale tarde que nunca. Eu diria que mais vale cedo que tarde, embora não saiba afirmar o que aqui significa cedo ou tarde, muito menos o que quer dizer nunca, palavra (sentimento?) tão definitiva, longínqua.
Sei que há momentos, ontem e hoje e até amanhã, em que a liberdade vai passando por nós e que mesmo que só a vislumbremos por breves instantes, a devemos abraçar, senti-la junto a nós e deixar que ela nos banhe por completo. Não esquecê-la, mesmo que demore muito a voltar, porque só assim conseguiremos colar sorrisos nas caras que trazemos todos os dias.
Espero que assim seja, pelo menos foi o que ouvi Pereira afirmar e eu gosto de acreditar nele.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

histórias com música (13)

A noite estava luminosa. Uma lua enorme, maior que todas as que já vira, enchia de bons prenúncios aquele fim de dia.
Saiu para a rua, olhando o céu e contando todas as estrelas que entretanto se tinham aproximado.
Não sabia onde ia, nem isso o preocupava neste instante. Queria apenas seguir aquele caminho que a lua lhe indicava e cair, por ventura, nas garras de algum lobisomem que, decerto, iria estar à solta numa noite como esta.
Ao rodar a primeira esquina viu-a distintamente. Era riscada, tinha uns olhos penetrantes e fitou-o com languidez. Rápida como uma seta, fugiu o mais depressa que pode. Ele ainda esboçou um gesto que indiciava uma corrida, mas logo desistiu. Não valia a pena, pensou, numa noite como esta não era uma qualquer vadia que o faria correr.
Subiu o muro mais próximo e espreguiçou-se ao luar. Abriu muito os olhos e mirou-se num vidro próximo. Achou-se deslumbrante.
Esperou… Sabia que esta ia ser uma noite boa!
A vadia, como ele a havia alcunhado, aproximava-se devagar. Ele fez de conta que não a via. Ela subiu o muro lentamente e encostou-se a ele devagar, ronronando como só ela sabia.
Ele olhou-a fixamente nos olhos e sorrindo maliciosamente, disse-lhe na voz mais penetrante que era capaz:
- Miauuuu…

Rohmer

Eric Rohmer deixou-nos hoje. Os seus filmes ficarão sempre connosco.


A Nona Porta, aliás, O Clube Dumas


Roman Polansky realizou-o. Chamou-lhe A Nona Porta.
Johnny Depp deu-lhe cara.
Quem, no entanto, o pensou e lhe deu vida foi Reverte.
Chamou-lhe O Clube Dumas. Estou a lê-lo e está a cativar-me.
Não há nada como um bom livro. Mesmo que o filme que lhe suceda nos dê imagens que fascinam, as que nós próprios soltamos dos livros são as que realmente nos marcam.

domingo, 10 de janeiro de 2010

histórias com música (12)

- Menino não chores. Disse-lhe eu, tentando enxugar-lhe as lágrimas que lhe caíam em silêncio.
Olhou-me com o seu olhar único, meigo e triste. As lágrimas continuavam a cair. O coração continuava a apertar-me o peito.
- Não é necessário. Acrescentei, não acreditando, por um segundo que fosse, nas minhas próprias palavras.
Contudo, ele acedeu. Não sei se por me querer fazer a vontade, ou por acreditar na minha falta de convicção.
Passei-lhe a mão pela carita e ele sorriu.
- Assim sim menino. Estás mais bonito. Afirmei pensando que a sua beleza era igualmente evidente a chorar ou a sorrir.
Deu-me então a mão e perguntou-me na sua vozinha melodiosa.
- É mesmo verdade que os meninos não podem chorar?
Sorri e respondi-lhe.
- Não, não é.

Revisitando Jacobs

Com o devido respeito pela memória de Jacobs, é altamente recomendável esta nova aventura de Blake e Mortimer, aqui apresentada de um modo particularmente peculiar.
A não perder!

12 angry men


A verdade nunca é nua e crua. Tem sempre muitas nuances, vertentes várias, olhares diversos. Há a minha e a tua, que pode ser diferente da nossa ou da vossa. Cada um de nós tem a sua e, muitas vezes, acredita nela sem rodeios, sem dúvidas, sem hesitações.
Resta saber até que ponto a verdade interessa deveras? Aquela que, dizem as vozes, é indubitável.
Será de fiar?
A sério?
Verdade, verdadinha?
Ou será que temos que procurar 12 homens, mesmo que sejam a preto e branco, para lá chegarmos?

Há 81 anos

Abriu há 81 anos com destino ao País dos Sovietes.
Fechou há quase 17 com esta imagem.

Prepara-se agora para chegar à tela grande.
É um octagenário que continua jovem e em grande.
Parabéns!

histórias com música (11)

Olhei-te quando chegaste. The best day of my life, pensei, em inglês e tudo, que é mais cinematográfico.
Cresceste-me nos braços. Naqueles que te foram abraçando ao longo de todos estes anos. Mesmo quando não querias que te abraçasse, eu abracei-te.
Vi-te crescer, uns dias melhores que outros, uns dias mais felizes que outros.
Amparei-te, fiz-te sorrir e até gargalhar. Houve também alturas em que te desapontei, lamento-o, mas são assim as dores do crescimento. Do teu e do meu.
Estás diferente hoje, como é natural. No entanto continuo a ver-te como naquele primeiro dia, há já 11 anos. E sei que hei-de continuar a ver-te assim, porque foi das imagens, dos momentos, mais marcantes da minha vida e porque nada pode substituir isso. Ainda bem.
Sei que, muito provavelmente, tempos difíceis se vão aproximar, em que te vais chatear comigo e achar-me horrível, mas não faz mal, faz tudo parte. Para mim serás sempre um tesouro, uma jóia sorridente que me faz feliz.
My precious Kid…

(pelo dia de ontem)

Há 81 anos

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Bowie again!

E porque ele faz hoje anos.
E porque o tipo tem uma pinta incrível.
E porque eu gosto imenso desta canção.
E porque é o Camaleão, o único e inimitável Bowie.
Aqui fica Drive in Saturday numa excelente performance do sexagenário mais cool da música popular dos nossos dias!
Parabéns!

Exponoivos (para todos)


E agora que, ao que parece, já toda a gente se pode casar, não esqueçam que a Exponoivos começa hoje e dura até domingo!

Kings

Se fosse vivo Elvis Presley faria hoje 75 anos. Mas cantor por cantor, músico por músico, prazer por prazer, King por King, permito-me antes festejar outro aniversário, o 63º do Camaleão!