quarta-feira, 11 de novembro de 2009

terça-feira, 10 de novembro de 2009

9,15 metros


Mesmo antes de tombar, Robert lembrou-se de tudo.
Do bosque onde costumava esconder-se por entres as árvores frondosas. Das caçadas movimentadas que tentava fazer e das quais apenas resultavam nódoas negras e uns pequenos pássaros de que nunca chegou a saber o verdadeiro nome. Das noites iluminadas por uma lua fugidia que lhe punham os nervos em franja, mas também lhe davam motivos para criar as mais assombrosas e fascinantes histórias de que tinha memória.
Lembrou-se de muitos rostos. Daqueles que lhe eram familiares e dos outros de que nunca voltara a ter noticias.
Recordou até palavras que, há muito, julgava esquecidas. Frases inteiras, histórias completas, vidas que o acompanharam.
Mas não conseguiu lembrar-se porque razão ali estava, tombando inapelavelmente, sentido que o chão se aproximava sem fuga e vendo toda a cena como se tratasse apenas de um mero espectador.
Sentia tudo isto no que lhe parecia uma lentidão exasperante, embora fosse, ao mesmo tempo, possibilitadora da vinda de todas as memórias, que, apesar de o assustarem, o maravilhavam também.
Mesmo antes de tombar, Robert olhou o céu e percebeu que uma luz muito brilhante lhe ofuscava, por completo, a visão. Fechou por isso os olhos e deixou-se tombar mais depressa, numa queda infinita.
Quando sentiu finalmente o seu corpo chocar contra o solo, Robert abriu os olhos…
Um barulho ensurdecedor tapou-lhe os ouvidos.
Foi aí que percebeu que tinha conseguido defender o último penalty.

(em memória de Robert Enke)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

E agora Astérix?


Uderzo afirmou há pouco tempo, no decorrer das comemorações do 50º aniversário de Astérix, que já encontrou sucessor para a continuação das aventuras do pequeno gaulês e da sua tribo de irredutíveis gauleses.
Não é caso inédito nos anais da banda desenhada. Séries tão, justificadamente, famosas como Blake e Mortimer ou Spirou, conheceram o mesmo destino.
A mim, como leitor deleitado dessas histórias, dá-me um prazer suplementar que elas continuem para lá dos seus criadores originais. Sempre surgem mais hipóteses de renovadas horas de prazer. No entanto, creio que é inevitável que se perca alguma (ou, por vezes, toda) originalidade e força criativa que, pelo menos por terem sido os primeiros, os criadores das séries imprimiram às mesmas.
Quem me conhece sabe que sou um admirador irredutível de Tintin e, hoje, passados mais de 26 anos sobre a morte de Hergé, dou graças por este autor não ter permitido a continuação das aventuras. Desse modo Tintin tornou-se, como é legítimo e natural, a obra da vida de Hergé e nós, fiéis leitores, permanecemos fiéis por isso mesmo, porque em cada renovada leitura podemos (e conseguimos) descobrir novas maneiras de ler a sua obra, sendo os motivos de prazer sempre crescentes. E depois temos o conforto de conhecer toda a obra e de a poder apreciar na sua plenitude, por quem a imaginou, criou e deu a conhecer.
Fico, por isso, um pouco apreensivo com esta decisão de Uderzo. Se bem que, depois da morte de Goscinny, Astérix se venha tornando apenas numa fraca sombra daquilo que, muito justamente, foi até finais da década de 70.
O que esperar então? Um renascimento ou apenas a continuação deste limbo pseudo criativo.
Esperemos…

Ícones do século XX (43)

domingo, 8 de novembro de 2009

sábado, 7 de novembro de 2009

histórias de Rosa Branca


XVII

Em Rosa Branca havia quem estivesse convencido que alguns minutos tinham mais que os usuais sessenta segundos. Quem jurasse que algumas semanas ultrapassavam os meros sete dias.
Na verdade nunca ninguém tinha feito prova científica.
No entanto, mesmo sendo verdadeiro, o fenómeno não era evidente, porque, por efeitos tão naturais como o vento que sopra ao contrário, ou a chuva que só cai nas noites de lua nova, havia igualmente quem jurasse que no mês seguinte iriam surgir alguns dias que acabavam antes da meia-noite, ou meses que paravam no dia 29 mesmo sem pertencerem a anos bissextos.
Acontecimentos como este não eram, por isso, objecto de grandes delongas, aliás eram encarados tão naturalmente como a possibilidade de um concidadão abrir asas e voar.
Por isso mesmo, naquela manhã, não era por curiosidade mórbida que a multidão se acotovela na praça principal, olhando avidamente para Jordão Perestrelo. Mas tão-somente porque naquele dia, que não era maior ou menor que os outros, todos acreditavam que Jordão poderia provar aquilo que toda Rosa Branca sabia ser o seu destino.


(continuará)

Berlim e os muros

Estive em Berlim pouco tempo depois do muro ter caido. Vi uma cidade a abrir-se, a escancarar-se perante todos os que dela se abeiravam. Contudo, notei também que vários outros muros se iam erguendo sem que quase ninguém os notasse, ou os quisesse notar. Muros que eram invisíveis a quem por eles passava sem olhar, sem ver, sem perceber que a vida não é apenas feita do aparentemente tangível.
Berlim significa mais que uma cidade que foi murada, que foi dividida pela cegueira dos homens. Berlim pode significar uma espécie de redenção para aqueles que querem acreditar.

Wim Wenders mostrou como,

Obrigado Sérgio (III)

por isto...

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

No aniversário do Blitz lembrei-me...

Há 25 anos nascia o Blitz, jornal ao qual me afeiçoei nos primeiros tempos, mas que, aos poucos, foi caindo no desuso das minhas leituras periódicas nem eu sei bem porquê. O facto é que o deixei de comprar e só o lia muito ocasionalmente. Hoje em dia também não sou leitor assíduo da revista que lhe sucedeu, embora lhe reconheça uma qualidade muito aceitável e a folheie, de quando em vez, com agrado evidente.
Mas antes do Blitz, aí sim, era leitor convicto de alguns semanários que se dedicavam a explicar-nos, de alguma forma, a música que se ia fazendo e que nos ia encantando os dias. Primeiro que todos o inesquecível Se7e. Verdade que não era apenas dedicado ao fenómeno musical e por isso era mais completo, muito mais completo, ainda hoje tenho muitas saudades das manhãs de quarta-feira quando ia a correr comprá-lo e o lia de ponta a ponta.

Depois aqueles que tinham como primeira preocupação a difusão das músicas que iam sendo registadas. O jornal Musicalíssimo que era mais leve, mas que tinha uma cobertura apreciável de tudo o que se ia fazendo e melhor ainda a revista Música & Som, essa sim uma boa resposta portuguesa às estrangeiras que de vez em quando aí apareciam, como a Rolling Stone, a Inrockuptibles, ou a New Musical Express.
Desses tempos guardo o prazer da leitura que associava à audição e à fruição entusiasmada das histórias que giravam à volta das bandas e dos cantores.
Hoje vou ouvindo mais que lendo, até porque, depois destes anos todos, conclui que as histórias daqueles que fazem as músicas interessam muito menos do que aquilo que nos dão a ouvir.

Pelos cabelos


E agora, se mudar de penteado, talvez consiga arranjar algum clube de jeito!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Dolce Vita



Será assim que se deseja uma vida doce?

Hide in my shell...

Todos nós temos conchas às quais nos vamos afeiçoando com maior ou menor prazer, com mais ou menos vontade. Se bem que haja quem quase não as note, por andar muito entretido com a sua própria prosápia e tentativa de se evidenciar perante os outros, há também quem nela se refugie amiúde e com vontade nenhuma de lá sair. Podem ser conchas duras, impenetráveis, daquelas que chegam a ser à prova de fogo, ou então só aparentemente isso.
Também eu tenho concha. Anda sempre comigo. Às vezes mal se vê, ou pelo menos assim julgo. De outras é tão enorme que dificilmente passa despercebida. Serve-me para ficar comigo mesmo, para me ir percebendo, para, até, fugir daquilo que me atormenta, ou então para me ajudar a derrubar alguns dos muros que teimam em atravessar-se no caminho.
Sei que preciso dela, sei que nunca a hei-de deixar fugir, tornou-se uma boa companheira e, na verdade, nunca me faltou, nunca me desiludiu, embora, reconheça, às vezes me apareça abruptamente.
E não, não me julgo crustáceo por cauda disso, aliás, esta concha é tão moldável que raras são as pessoas que já a viram, embora algumas dela desconfiem.
No fundo mais não é que um esconderijo, onde gosto de me resguardar e, se possível, apreciar alguns momentos bons e reconfortantes, algumas memórias queridas como, por exemplo, a desta música tão a propósito…

terça-feira, 3 de novembro de 2009

segunda-feira, 2 de novembro de 2009