segunda-feira, 27 de abril de 2009
sábado, 25 de abril de 2009
Há 35 anos...

Amanheceu cinzenta aquela 5ª feira de Abril, a adivinhar chuva… o que, tendo em conta a voz popular, mais certa naquela altura que hoje, nem estava errado, já que em Abril águas mil!
Levantou-se, lavou-se e tomou o pequeno-almoço, tal como fazia todos os dias. Os pais escutavam o rádio, sintonizado no Rádio Clube, como todos os dias.
A escola distava apenas uns 500 metros da casa. Ele já tinha 10 anos e como era habitual fez sozinho o trajecto.
À frente da escola havia um pequeno jardim, onde costumava brincar com os amigos, chamavam-lhe O Alto. No fim desse jardim ficava a casa dos seus avós, onde passava grande parte do seu tempo livre.
Naquele dia avó esperava-o à entrada da escola. Com ar sério disse-lhe:
- Há revolução em Lisboa!
Para ele aquilo soava às histórias verdadeiras que a avó lhe costumava contar. Histórias das revoltas que rebentavam quase semana sim, semana não, durante o tortuoso período da 1ª República. Histórias onde entravam os seus tios-avós, dois dos irmão mais velhos da avó, que era a benjamim de 8 irmãos.
Mas o ar sério da avó deixou-lhe a sensação de que, desta vez, não era apenas uma história.
Entrou na sala de aula, onde o seu colega de carteira lhe disse que, ao passar no posto da GNR, tinha notado as portas fechadas e os soldados à janela com as espingardas visíveis.
Quando a professora entrou levantaram-se, como faziam todos os dias. A senhora, com ar solene, encimada pelas fotos de Salazar, Caetano e Tomás, falou.
Disse-lhes que não havia aulas, que deviam ir para casa e ficar por lá. Não explicou mais nada.
Foi uma festa. Um dia de folga, sem mais nada para fazer. Um dia inteiro para brincar.
Na rua algumas pessoas juntavam-se em pequenos grupos. Não mais de 3, 4 pessoas e reuniam-se à volta de pequenos transístores, que iam debitando noticias e sons que, normalmente, não cabiam nas habituais transmissões.
Passava-se, de facto, alguma coisa!
Brincaram o dia todo. Pela rua, pelos descampados que por lá havia. Com espadas de madeira. Imaginando grandes batalhas, em que só os bons podiam vencer.
Ao fim da tarde acendeu-se a televisão. O som de uma marcha, até aí desconhecida, soava.
Imagens de militares na rua, de imensas pessoas na rua, de gritos de alegria, de festejos impensáveis.
Imagens de vários militares fardados, militares graduados, com ar sério, sentados à volta de uma mesa. Um, talvez o mais velho, de monóculo, falava em nome de uma Junta de Salvação Nacional.
Não percebeu bem do que se tratava, mas começou a ver sorrisos nas ruas, pessoas abraçadas, a festejar, pessoas com cravos vermelhos nas mãos, nos cabelos, nas lapelas.
Nos dias seguintes viu-se, criança que era, no meio da alegria incontida, a descer a rua onde morava, de mãos dadas com outras crianças, com adultos que sorriam e entoavam aquelas palavras que nunca mais lhe saíram dos ouvidos:
O povo unido jamais será vencido!
Hoje, a esta distância, com os anos que se passaram e as experiências adquiridas, vemos melhor que, naquela altura, todos éramos crianças, todos ríamos felizes, todos acreditávamos…
Até que esta espécie de realidade, a que chamam normalidade, falou mais alto e todos percebemos que as festas, sobretudo as mais espontâneas e felizes, também têm um fim.
Para mal de todos nós…
sexta-feira, 24 de abril de 2009
Hard-Core

Por este passava quase todos os dias quando ia a caminho do Liceu Camões. Nunca lá entrei. Passava daqueles filmes muito populares após o fim da censura, dirigidos a uma franja da população, sobretudo homens, que queriam ver filmes cuja acção era passada entre corpos suados e gemidos sonoros, sem muito mais para ver além dum hard-core 1º escalão.
Teve um período em que evoluiu para outros filmes, mais próprios das cinematografias alternativas de qualidade, quando deixou de se chamar Cinebolso e passou a ser conhecido como Quinteto, sendo, objectivamente, uma extensão do Quarteto. Contudo essa renovação não durou muito. Passado algum tempo retomou o nome antigo e voltou aos filmes porno. Talvez um sinal de que a qualidade cinematográfica não fosse atractiva para aquela sala, ou então a confirmação dum velho ditado português que nos diz que quem nasceu torto, tarde ou nunca se endireita, o que, perdoe-se-me a comparação, é o que parece estar a acontecer a esta nossa Lisboa!
Bom fim de semana!
Rua António Maria Cardoso - 24 de Abril de 1974

Dói-me o corpo todo…
Sinto um gosto a sangue a marcar-me a boca, um pequeno fio quase imperceptível escorre-me pelo canto do lábio.
Já não sei há quanto tempo não durmo.
Estou todo dorido, extenuado, mal consigo manter os olhos abertos. Já não consigo distinguir as suas caras.
Mas continuo a ouvi-los… embora nem perceba o que me dizem.
Ouço os gritos… as pancadas na mesa…
O pequeno candeeiro lá em cima vai mantendo uma ténue luminosidade, que evita a obscuridade que me quer envolver.
Estou deitado no chão… está muito frio aqui… a pouca roupa que me cobre está completamente encharcada…
Há um cheiro nauseabundo… não sei se vem de mim ou de um qualquer buraco cheio de pútridos despejos.
As dores ocasionais vão-se transformando em permanências.
Quero falar, pedir água, mas não consigo articular palavra…
Sinto uma nova pancada… já nem dói, já nem efeito tem…
Sei que fecho os olhos… a dor foi-se… já nem sinto o corpo…
Parece que levito agora… num estado de inconsciência total… de não retorno…
- Chama o cangalheiro pá! Este já não se levanta daqui!
Dias da Música

Inicia-se hoje no CCB mais uma edição dos Dias da Música.
Este ano as músicas andam à volta de J.S.Bach, o mestre do barroco.
Como forma de homenagem a Bach e a um dos melhores colectivos musicais de todos os tempos, deliciemo-nos com The Long and Winding Road pela orquestra de Peter Breiner.
No. 3 (In the Style of J. S. Bach): the Long and Winding Road - Beatles Go Baroque
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Europe by Train

Gosto de andar de comboio. De percorrer campos imensos num comboio vagaroso, sem a pressão de um horário.
Gosto do ambiente das estações, da imponência das locomotivas e das carruagens, sobretudo daquelas que ainda têm compartimentos fechados, onde podemos viajar com maior sossego. Gosto de passear dentro do comboio, de ver os companheiros de viagem, de visitar o bar, de passar de uma carruagem para outra, de poder admirar a paisagem. Gosto do barulho que o comboio faz ao chegar a uma estação, de ver o bulício das entradas e saídas.
O comboio é o meio de transporte que mais perto está da poesia, que melhor fica na tela grande e até na música.
Como esta que os Divine Comedy nos ofereceram e que nos dá a exacta medida duma perfeita viagem de comboio numa Europa onde o TGV nem sequer era sonhado.
Venice in the spring (rain)

Era primavera, tal como hoje.
Já noite, depois do jantar, voltearam pelas ruelas estreitas e escuras.
O céu escuro pintou-se, ainda mais, de um negrume quase obsessivo.
Pingo após pingo a chuva adensou-se.
Na praça grande a água caía forte. Realçava a beleza da noite e do momento.
Era primavera, tal como hoje, e chovia intensamente. A água, que estava por todo o lado, entranhava-se nas roupas e chegava aos ossos.
Era primavera, tal como hoje, e um novo ciclo tinha o seu inicio.
A natureza renovava-se...
O milagre do Condestável ?
Dia Mundial do Livro

Hoje é o Dia Mundial do Livro. Hoje é um dia ambíguo!
É óptimo que haja um dia em que se comemora o livro! Mas é igualmente muito bom que a leitura seja uma prática diária!
No nosso país não temos falta de livros. Todos os dias vão saindo mais uns quantos. Uns melhores, outros nem tanto. Uns que são para ler, outros nem tanto. No nosso país temos, sobretudo, é falta de leitores. De leitores a sério, daqueles que se deixam cativar pelos livros, daqueles que os acarinham e lhes dão vida, daqueles que os sentem como seus e os transportam consigo, mesmo quando estão fechados. É disso que temos falta, de quem ame os livros e não de quem os considere objectos de luxo, de decoração, meros acessórios.
É bom que haja um dia dedicado ao livro. Melhor seria se houvesse 365 dias dedicados aos que querem ler. Porque só assim se compreende a leitura, a séria, a que realmente conta, a que realmente nos completa.
Hoje, Dia Mundial do Livro irei ler, porque hoje, Dia Mundial do Livro, é um dia como os outros, em que ler é sinónimo de viver.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Pieguices de pai
Abre-se o sorriso numa infinidade de cambiantes que nos fazem tremer de emoção.
Sabemos que o tempo não se faz esperar, que corre desalmadamente para um fim que não queremos conhecer e nada podemos fazer para o parar, mesmo quando, como naquele momento, o sorriso que nos oferecem é mais que tudo aquilo a que podemos almejar. Apetece ficar ali, cristalizado naquele instante em que mais nada é possível, nem sequer desejável.
Porque quando são assim, pequeninos, têm em si tudo o que de bom existe e porque nós, os que já crescemos, sabemos (infelizmente?) que a verdadeira beleza é ali que reside, naquele sorriso infinito que nos é oferecido como se fosse a melhor coisa do mundo!
E é!
Sabemos que o tempo não se faz esperar, que corre desalmadamente para um fim que não queremos conhecer e nada podemos fazer para o parar, mesmo quando, como naquele momento, o sorriso que nos oferecem é mais que tudo aquilo a que podemos almejar. Apetece ficar ali, cristalizado naquele instante em que mais nada é possível, nem sequer desejável.
Porque quando são assim, pequeninos, têm em si tudo o que de bom existe e porque nós, os que já crescemos, sabemos (infelizmente?) que a verdadeira beleza é ali que reside, naquele sorriso infinito que nos é oferecido como se fosse a melhor coisa do mundo!
E é!
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