sexta-feira, 24 de abril de 2009

Rua António Maria Cardoso - 24 de Abril de 1974


Dói-me o corpo todo…
Sinto um gosto a sangue a marcar-me a boca, um pequeno fio quase imperceptível escorre-me pelo canto do lábio.
Já não sei há quanto tempo não durmo.
Estou todo dorido, extenuado, mal consigo manter os olhos abertos. Já não consigo distinguir as suas caras.
Mas continuo a ouvi-los… embora nem perceba o que me dizem.
Ouço os gritos… as pancadas na mesa…
O pequeno candeeiro lá em cima vai mantendo uma ténue luminosidade, que evita a obscuridade que me quer envolver.
Estou deitado no chão… está muito frio aqui… a pouca roupa que me cobre está completamente encharcada…
Há um cheiro nauseabundo… não sei se vem de mim ou de um qualquer buraco cheio de pútridos despejos.
As dores ocasionais vão-se transformando em permanências.
Quero falar, pedir água, mas não consigo articular palavra…
Sinto uma nova pancada… já nem dói, já nem efeito tem…
Sei que fecho os olhos… a dor foi-se… já nem sinto o corpo…
Parece que levito agora… num estado de inconsciência total… de não retorno…


- Chama o cangalheiro pá! Este já não se levanta daqui!

Há 35 anos...

... a esperança falou mais alto!

Dias da Música


Inicia-se hoje no CCB mais uma edição dos Dias da Música.
Este ano as músicas andam à volta de J.S.Bach, o mestre do barroco.
Como forma de homenagem a Bach e a um dos melhores colectivos musicais de todos os tempos, deliciemo-nos com The Long and Winding Road pela orquestra de Peter Breiner.


No. 3 (In the Style of J. S. Bach): the Long and Winding Road - Beatles Go Baroque

Absolut (24)

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Europe by Train


Gosto de andar de comboio. De percorrer campos imensos num comboio vagaroso, sem a pressão de um horário.
Gosto do ambiente das estações, da imponência das locomotivas e das carruagens, sobretudo daquelas que ainda têm compartimentos fechados, onde podemos viajar com maior sossego. Gosto de passear dentro do comboio, de ver os companheiros de viagem, de visitar o bar, de passar de uma carruagem para outra, de poder admirar a paisagem. Gosto do barulho que o comboio faz ao chegar a uma estação, de ver o bulício das entradas e saídas.
O comboio é o meio de transporte que mais perto está da poesia, que melhor fica na tela grande e até na música.
Como esta que os Divine Comedy nos ofereceram e que nos dá a exacta medida duma perfeita viagem de comboio numa Europa onde o TGV nem sequer era sonhado.

Venice in the spring (rain)


Era primavera, tal como hoje.
Já noite, depois do jantar, voltearam pelas ruelas estreitas e escuras.
O céu escuro pintou-se, ainda mais, de um negrume quase obsessivo.
Pingo após pingo a chuva adensou-se.
Na praça grande a água caía forte. Realçava a beleza da noite e do momento.
Era primavera, tal como hoje, e chovia intensamente. A água, que estava por todo o lado, entranhava-se nas roupas e chegava aos ossos.
Era primavera, tal como hoje, e um novo ciclo tinha o seu inicio.
A natureza renovava-se...

O milagre do Condestável ?


«D. Nuno Álvares Pereira é canonizado no sábado [dia 25 de Abril] (…)
As cerimónias são (...) na praça de S. Pedro, presididas pelo Papa Bento XVI.(…)»


25 de Abril…?
D. Nuno Álvres Pereira...?
Convento do Carmo...?
Largo do Carmo…?
25 de Abril!!!

Querem ver que o 25 de Abril foi um milagre do Condestável?

Há 35 anos...

...desataram-se as mordaças!

Dia Mundial do Livro


Hoje é o Dia Mundial do Livro. Hoje é um dia ambíguo!
É óptimo que haja um dia em que se comemora o livro! Mas é igualmente muito bom que a leitura seja uma prática diária!
No nosso país não temos falta de livros. Todos os dias vão saindo mais uns quantos. Uns melhores, outros nem tanto. Uns que são para ler, outros nem tanto. No nosso país temos, sobretudo, é falta de leitores. De leitores a sério, daqueles que se deixam cativar pelos livros, daqueles que os acarinham e lhes dão vida, daqueles que os sentem como seus e os transportam consigo, mesmo quando estão fechados. É disso que temos falta, de quem ame os livros e não de quem os considere objectos de luxo, de decoração, meros acessórios.
É bom que haja um dia dedicado ao livro. Melhor seria se houvesse 365 dias dedicados aos que querem ler. Porque só assim se compreende a leitura, a séria, a que realmente conta, a que realmente nos completa.
Hoje, Dia Mundial do Livro irei ler, porque hoje, Dia Mundial do Livro, é um dia como os outros, em que ler é sinónimo de viver.

Absolut (23)

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Pieguices de pai

Abre-se o sorriso numa infinidade de cambiantes que nos fazem tremer de emoção.
Sabemos que o tempo não se faz esperar, que corre desalmadamente para um fim que não queremos conhecer e nada podemos fazer para o parar, mesmo quando, como naquele momento, o sorriso que nos oferecem é mais que tudo aquilo a que podemos almejar. Apetece ficar ali, cristalizado naquele instante em que mais nada é possível, nem sequer desejável.
Porque quando são assim, pequeninos, têm em si tudo o que de bom existe e porque nós, os que já crescemos, sabemos (infelizmente?) que a verdadeira beleza é ali que reside, naquele sorriso infinito que nos é oferecido como se fosse a melhor coisa do mundo!
E é!

A televisão tablóide


No DN:

«Moura Guedes processa primeiro-ministro
A directora adjunta da TVI decidiu processar o primeiro-ministro depois de Sócrates ter dito na RTP que o Jornal Nacional de sexta-feira é um "telejornal travestido" e uma "caça ao homem".
"Aquilo não é um telejornal, é uma caça ao homem", é "um telejornal travestido", feito de "ódio e de perseguição", disse, queixando-se ainda da ausência de críticas entre os jornalistas ao tipo de jornalismo praticado por Manuela Moura Guedes.
"Vou processá-lo", foi assim que reagiu a directora adjunta de informação e pivô da TVI, Manuela Moura Guedes, contactada pelo DN, depois de ter ouvido a entrevista(…)»


Não creio que seja exclusivamente uma “caça ao homem”, mas também considero que aquele telejornal se caracteriza, sobretudo, por uma informação/espectáculo, pouco dignificante e ainda menos fiável! O jornalismo, para ser considerado como tal, tem que ser sério, factual e concreto, tudo o resto é fogo de vista, é ruído inútil, é opinião fútil. E é isso que se vê naquele espaço televisivo! É uma espécie de reality show, onde tudo pode estar presente. Tudo menos a informação, tudo menos a seriedade, tudo menos aquilo que, supostamente, devia ter!
E aquela senhora, depois de ter sido cantora, deputada e vendedora de detergentes, quer convencer-nos que ainda consegue ser jornalista?
Só mesmo numa televisão tablóide!

Há 35 anos...

...os sorrisos voltaram!

As vantagens da liberdade


No CM :

«(...) Câmara de Santa Comba Dão inaugura obra no próximo sábado - Largo Salazar abre a 25 de Abril
O presidente da Câmara de Santa Comba Dão fala em “coincidência”, mas da polémica já não se livra. A autarquia vai aproveitar as comemorações do 35º aniversário do 25 de Abril, no sábado, para inaugurar o largo António de Oliveira Salazar, situado no centro da cidade.(...)
O espaço público já existe há três décadas, mas nos últimos três meses foi alvo de profundas obras de requalificação, num investimento que rondou 80 mil euros.(...)»


Não deixa de ser uma estranha e infeliz coincidência! Celebrar o 25 de Abril com uma festa em que se evoca o nome de Salazar é como celebrar a liberdade de expressão com a inauguração duma rua chamada Lápis Azul, ou como louvar as liberdades cívicas com a abertura de uma avenida com o nome de PIDE!!! Ou seja, no mínimo, de um mau gosto atroz!
De qualquer forma não deixa de ser sintomático que foi exactamente por ter acontecido o 25 de Abril que estas parvoíces podem acontecer!

Absolut (22)