sexta-feira, 17 de abril de 2009

Galeria do Nunca (50)


Autor desconhecido
Retrato do Cavaleiro François de Hadoque - finais do século XVI

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Les Maquis


Desde pequeno que tenho um certo fascínio pela Resistência que em França combateu os nazis durante a II Guerra Mundial. Foi-me trazido pelos pequenos livros de banda desenhada que eram editados no Falcão, como por exemplo, a Mademoiselle X, mas também pelos filmes que ia vendo, quer documentários, quer ficções, e muito também por uma série de televisão que, creio, se chamava, também, Resistência.
O facto é que sempre admirei aqueles homens e mulheres que lutaram, resistiram e morreram pela libertação da sua terra e igualmente pela derrota da mais nojenta e desprezível tirania que a Europa conheceu no século passado. As imagens a preto e branco acompanham-me sempre que penso nos maquis franceses, nas suas tradicionais boinas pretas, nos seus ataques e fugas, nas suas glórias e tantas derrotas, nas suas perdas, na sua força, querer e por fim na sua vitória. Ainda hoje, a esta distância e depois de todos os crivos que entretanto lhe foram colocados, os vejo como dos primeiros grandes heróis anti-nazis e como a mais notável ponta de lança contra a loucura desmedida do execrável Adolfo.
Até mesmo quando são retratados na pele de uma senhora que dá pelo nome de Michelle e que não gosta de repetir as informações que tem para dar!

Na gaveta... (II)


Guardado na gaveta desde 21 de Setembro de 1983:

O helicóptero desceu sem grande alarido. Pousou suavemente e Januz saiu, denotando um cansaço natural após quase 3 horas de voo.
Olhou à sua volta. O local estava deserto. Nem mesmo sabia que lugar era aquele. Que azar ter sido apanhado pela tempestade logo quando a sua missão estava a acabar.
Podia estar num sítio qualquer, a bússola partira-se e o rádio não funcionava. Tantos azares no mesmo dia, pensou!
Por acaso ia entregar vários produtos enlatados à colónia dos refugiados e comida não lhe faltava. Comeu depressa e bem. Sentia-se extenuado. O tempo estava quente, o seu relógio marcava 20 horas, mas com aquele sol, devia ser muito mais cedo.
Estava muito cansado, tão cansado que resolveu deitar-se um pouco. Adormeceu rapidamente.
Acordou algum tempo depois, repetindo o velho hábito de olhar para o relógio. Marcava 6 horas. Dormira exactamente 10 horas. O sol continuava a brilhar intensamente e o calor era abrasador. Caíam algumas gotas de chuva.
Continuava a não haver vivalma pelas redondezas. Nem um som.
Não conseguia perceber onde estava. Tentou o rádio mais uma vez, mas continuava mudo.
À sua volta um extenso campo verde, com algumas árvores ao fundo. Pensou que para lá do pequeno bosque haveria algum caminho que o levasse a alguém.
Pôs uma mochila ao ombro e começou a caminhar nessa direcção.
Fixou o espaço onde estava, para poder voltar.
Andou durante alguma horas. O céu continuava a pingar, embora o calor fosse intenso. A própria chuva era quente. O sol parecia que nunca se punha, continuava lá bem no alto.
Não avistou ninguém, só relva e árvores, nem sequer um pequeno animal.
De repente viu o que lhe pareceu ser uma casa. Correu para lá.
Até que enfim, pensou.
Mas, onde é a porta? A casa não tinha porta e agora que reparava melhor, era uma casa estranha, mole, descolorida, redonda.
Notou então que havia um janelinha lá em cima, um pouco mais alta do que ele próprio.
Arranjou um último fôlego e conseguiu alcançá-la e entrar. Caiu em cheio no soalho interior. Não se magoou contudo. Era mole, fofo, confortável até.
A casa, apesar de maior do que parecera do lado de fora, só tinha duas divisões. Estava completamente vazia, com uma pequena excepção. Junto à parede mais distante estava uma pequena mesa, de um branco quase transparente.
Januz chegou-se junto dela e tocou-lhe. A mesa encolheu-se! Nova tentativa e a mesa voltou a encolher-se.
Sentou-se então no chão e comeu o que trazia na sua mochila.
Depois tentou, novamente, tocar na mesa. O encolhimento desta vez não surtiu efeito e a mesa, depois de tocada, volatilizou-se numa nuvem de fumo colorido!
Januz não queria acreditar nos seus olhos, enquanto da nuvem iam caindo grossa gotas de uma água quente.
Saiu da casa, que parecia estar mais pequena agora.
O sol continuava a brilhar, a canícula era quase insuportável, a chuva continuava a cair e ao longe notava-se uma outra luz, muito ténue, uma luz torneada por uns fios luminosamente coloridos, embora muito difusos.
Já tinham passado mais de 24 horas desde que ali tinha chegado.
Tentou recordar-se do caminho de volta ao seu aparelho. As referências espaciais que tinha eram quase inúteis, toda a paisagem parecia igual.
Ao fim de algum tempo conseguiu avistar a sombra do seu helicóptero.
Notou que havia alguém junto dele. Pareceram-lhe 3 ou 4 vultos. Gritou, tentando chamar-lhes a atenção. Começou a correr. De repente sentiu uma enorme pressão na cabeça. As forças a faltarem-lhe. Desmaiou.
Quando despertou estava novamente sozinho.
A seu lado viu uma pedra. A primeira que vira desde que ali chegara. Era verde, de um verde brilhante, quase vivo. Olhou-a com atenção e reparou então que não era verde, era azul… amarela… laranja… vermelha… não, era verde mesmo! De um verde brilhante, vivo!
Pegou-lhe e viu, estupefacto, que imediatamente se desfez numa nuvem de fumo colorido.
Abismado com o que se estava a passar dirigiu-se ao aparelho. Sentou-se no seu banco e olhou o céu. Continuava aquele sol inclemente, aquela chuva esparsa e interminável e viu que, mais ao longe, a luz, que tinha notado há pouco, era agora mais forte e as cores dos fios mais nítidas.
Fechou os olhos e pensou na sua terra, pela primeira vez sentiu saudades. Ouviu então um ruído seco a seu lado. Abriu rapidamente os olhos.
Viu três sombras espelhadas na relva. Levantou-se a saiu do aparelho. Encarou com aqueles três! Tinham todos a mesma estatura, a mesma roupa, a mesma cara. A sua! Era como se estivesse a ver ao espelho!
Falou-lhes e eles responderam. Repetindo as suas palavras.
Januz voltou a falar e os três voltaram a repetir o que lhes havia dito.
Estendeu a mão tentando tocar-lhes e viu, com espanto, que desapareciam numa enorme nuvem de fumo colorido!
Atordoado deixou-se cair de joelhos. Deixando que a chuva, agora mais intensa, lhe molhasse o corpo, tornando a sua roupa numa amálgama peganhenta.
Aquele céu, onde um sol intenso e imperdoável se misturava com uma chuva quente que caía não se sabia de onde, dava-lhe uma horrível sensação de claustrofobia.
A luz era agora muito maior, as cores que a percorriam eram muito mais visíveis, cobriam-no quase por completo.
Sem saber o que fazer Januz levantou-se. Sentiu então que alguém se aproximava. Virou-se repentinamente.
Era pequeno, com um sorriso insondável a bailar-lhe no rosto. Não percebeu se era novo ou velho. Tinha o cabelo revolto, castanho e brincava com um trevo.
Januz, mesmo sem saber porquê, sorriu-lhe. Incompreensivelmente sentiu-se aliviado.
Retribuindo o sorriso, o desconhecido estendeu-lhe então a mão. Januz devolveu-lhe o gesto.
E já sem se surpreender, viu que a sua mão, o seu braço, o tronco, as pernas, os pés, se iam desfazendo numa enorme nuvem colorida.
Foi já no último momento que viu a luz colorida a ocupar quase todo o céu, vindo, justamente, acabar ali. Conseguiu ainda olhar para o pequeno ser que o observava e foi só no derradeiro segundo que reparou no caldeirão dourado.

Absolut (18)

O mundo da bola tuga


Será que para os tugas da bola o golo do madeirense compensou a eliminação do Porto?

Galeria do Nunca (49)


Rafael
A Escola de Atenas - 1510/1511

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Only the lonely...


Nos anos 80 havia um senhor que escrevia e cantava canções bonitas. Melodiosas, a maior parte das vezes. Soavam-me sinceras e, ao mesmo tempo, algo sofridas. Acho que hoje ainda escreve, mas já não o ouço há muito tempo, como ouvia naquela altura, cheguei até a assistir a um seu concerto no Coliseu.
Tenho comigo os seus três primeiros discos. Hoje voltei a pegar-lhes, a ouvi-los com gosto, muito gosto e descobri que, afinal, continuam a ter canções muito bonitas, como aquela que diz assim:

«(...)i was just hoping you might stay
but it's not easy to say
(...)
and it's not only the lonely
not only the lonely
fall for love»

Em tons de sépia


Tirei daqui esta imagem, simplesmente porque a acho muito bonita e muito expressiva.
Deitarmo-nos sob um livro pode significar a entrada num mundo de sonhos bons, de fantasias reais, de momentos inolvidáveis.
Dormir com um livro a cobrir-nos, pode dar-nos mais segurança que qualquer outro abrigo, ao mesmo tempo que nos abre portas e janelas para conseguirmos alcançar novas visões, novos desejos, novas partidas e chegadas.
Apetece ficar à luz da lua, adormecer calmamente, repousar numa paz serena, tudo debaixo da protecção apaziguadora dum livro. Em tons de sépia!

Bo...


Afinal não são apenas os meios de comunicação social portugueses a dar relevo à coisa. Esta imagem que vos trago foi tirada daqui.
Agora já há um permanente representante do nosso país junto da Casa Branca. Tenho, no entanto, algumas dúvidas que consiga transmitir os nossos desejos e aspirações junto dos amigos americanos, a não ser que os assessores do presidente Obama já consigam ladrar em português!!!

Absolut (17)

Serviço mínimo


No Público:

«"Sem eira nem beira"
Canção dos Xutos e Pontapés está a ser transformada em manifesto contra Sócrates»


Quem já ouve Xutos há 30 anos sabe que sempre foram (minimamente) incorrectos, (minimamente) irreverentes, (minimamente) polémicos. Até se tornarem consensuais, unânimes, comendadores!
Eu já ouvi a música em causa e parece-me que há uma tradição Xuteira, (minimamente) incómoda, (minimamente) rebelde, (minimamente) interventiva! Que, no fundo, acabará por, uma vez mais, ser consensual, unânime, comungada!
São, outra vez, os Xutos (minimamente) interessantes e consensualmente aplaudidos, até pelos senhores engenheiros deste país!
Mais que não seja, minimamente!

Galeria do Nunca (48)


Paul Cézanne
Os Jogadores de Cartas - 1892/1895

terça-feira, 14 de abril de 2009

A (in)decência farense

No Público há dois dias atrás:

«As funcionárias da Loja do Cidadão de Faro, inaugurada a 3 de Abril, foram proibidas de usar saias curtas, decotes, saltos altos, roupa interior escura, gangas e perfumes agressivos.(…)»

Ou seja, deve ser este, mais coisa menos coisa, o aspecto que querem dar às senhoras funcionárias!!!

E, já agora, uma questão que me intriga muito; quem será que vai controlar a cor da roupa interior???

Absolut (16)

Persepolis


Às vezes temos tendência para ser preconceituosos, egocêntricos, cegos diria eu.
Tomamos por bom aquilo que alguns media nos querem transmitir, sem utilizarmos o crivo do bom senso, sem nos darmos ao trabalho de espreitar para lá daquilo que parece, erroneamente, certo. E assim caminhamos no meio dum rebanho pejado de insensibilidades, sem nos preocuparmos em aquilatar se estamos no rebanho certo.
Vem isto a propósito da imagem que nos é passada sobre o Irão e sobretudo sobre os iranianos. Temos esta tendência de os incluirmos numa miríade de terroristas, de fundamentalistas, de pessoas imerecedoras do nosso respeito. Nada de mais errado! Não só estamos a confundir a nuvem por juno, como estamos a embarcar num erro muito comum, o do desconhecimento do outro, do desrespeito pelo próximo, estamos a cair na ignorância mais ignóbil, aquela que nós próprios criamos.
E, às vezes, é tão fácil combater essa tendência. Neste caso do Irão basta estarmos um pouco mais atentos e, por exemplo, pegarmos num livro brilhante chamado Persepolis (que também já deu filme de animação), onde Marjane Satrapi nos elucida e nos comove, ao mesmo tempo que nos oferece uma verdadeira imagem do seu Irão que, acredito, é o verdadeiro.
Imperdível!