sexta-feira, 6 de março de 2009

Badalhoquices (II)


No JN:

«Deputado aos insultos na sala do Parlamento
O deputado José Eduardo Martins, do Partido Social-Democrata, reagiu com "insultos" às insinuações que Afonso Candal, do Partido Socialista, lhe dirigiu, esta quinta-feira, no Parlamento durante o debate sobre Energias Renováveis.
"Vai para o c....", afirmou, mais do que uma vez, o deputado social-democrata depois do socialista ter deixado no ar que interesses particulares estariam alegadamente na base das preocupações energéticas de José Eduardo Martins (…)»


Não deixa de ser sintomático este exemplo que os, legitimamente eleitos, representantes do povo nos dão.
Assim sim, o povo sente-se verdadeiramente representado! José Eduardo Martins expressou, com todas as letras, aquilo que muitos de nós pensam em relação ao que se vai passando nos meandros políticos deste pobre país.
Uma autêntica badalhoquice!

La Solitude - Léo Ferré

A mais bela solidão!

quinta-feira, 5 de março de 2009

O aniversário do Bom Malandro


«A última bala encontrou Renato, escondeu-se-lhe no peito, do lado esquerdo, caiu sem um grito, quem gritou foi Marlene tombando a seu lado – mortos os dois.
(…)
O relatório da autópsia disse depois que Marlene morreu de ataque cardíaco. Nada mais falso, mas desculpem-se os médicos porque não conheceram Marlene e Renato. O que aconteceu – conta a malandragem escondida pelos alçapões da noite no forro da cidade – foi que Marlene morreu também de um tiro, que lhe acertou em cheio no coração do seu homem.
(…)
Na manhã do outro dia, Flávio, o Doutor, Pedro Justiceiro e Arnaldo Figurante, trajando de luto, tomavam café e comiam bolos ao sol de uma esplanada, após terem lido os relatos dos acontecimentos.
«Andam à nossa procura. Se calhar vamos ser apanhados», disse Flávio, e recostou-se comodamente, voltado para o sol.
Pedro folheou um jornal até encontrar as palavras cruzadas, enquanto Arnaldo mastigava mais um bolo de chocolate.»


É assim que termina este enorme bolo de chocolate, salpicado de uma boa e deliciosa malandragem, que em boa, melhor, óptima hora, Mário Zambujal confeccionou.
Por este e todos os outros doces que imaginou, criou e nos ofereceu, lhe estou muito grato.
É com um sorriso guloso que lhe desejo, hoje, um feliz aniversário, esperando que o bolo sobre o qual canta os parabéns a você seja, no mínimo, tão alegremente calórico quanto todos aqueles que já saboreei à sua conta!

Coboiadas


Teria para aí uns doze ou treze anos, quando fui ao cinema ver um filme que pensava ser apenas mais uma coboiada! Chamava-se Não Toques na Mulher Branca e o seu realizador era o senhor Marco Ferreri. Era uma coboiada sim, com o general Custer, o Bufallo Bill, índios e tudo. Mas passava-se numa cidade dos anos 70 do século XX e mostrava-nos a batalha sem tréguas que historicamente se chamou Little Big Horn, onde toda a cavalaria de Custer foi chacinada pelos índios. Desta feita transportada para uma modernidade e para um universo muitos próprios de Ferreri, que aqui voltou a pegar nos actores de La Grande Bouffe, Ugo Tognazzi, Philip Noiret, Michel Piccoli e Marcelo Mastroianni e juntou-lhes Catherine Deneuve.
Claro que, na altura, fiquei abismado com o que via, sem perceber patavina do que se passava na tela à minha frente. Nunca mais revi o filme, mas vi, com outra idade e outros olhos, o já citado A Grande Farra, Os Contos da Loucura Normal e A Carne, e gostei! Marco Ferreri é dono de um traço forte, duro, provocador, por vezes quase escatológico, mas, no fundo, muito atraente. Gostava de rever este Touche pas la femme blanche, mais que não fosse para ter a certeza que coboiadas como esta mais ninguém consegue fazer.

On se calme!


Há medida que o tempo vai passando, tenho cada vez menos dúvidas que o nosso amigo Gaston está coberto de razão!!!
Acima de tudo devemos ser pacientes!
Mesmo que demoremos mais tempo, com calma é certo que lá chegaremos!

Erudições


Já ia adiantado nos meus teens, quando, por alturas do chamado boom do rock português, ao ouvir um dos muitos discos de uma das novas bandas, me dei conta de uma frase que me ficou continuamente a bater.
Faço das palavras, sons e gestos, a grande alquimia de estar vivo!
Para alguém em estado adiantado de adolescência, com ambições a alguma erudição, ainda que algo ingénua, aquela frase significava uma boa síntese daquilo que eu julgava ser uma espécie de poesia moderna e urbana que devia vingar, por oposição aquilo que os canhenhos que estudava na escola me queriam impingir. À chatice que me vinha da lírica de Camões ou da estopada de um Garrett romântico, havia alguém que era do meu tempo, que fazia música agradável e que, ainda por cima, conseguia dar-me frases que faziam todo o sentido.
Cheguei, por isso, a escrever aquelas palavras na capa escolar que me acompanhava todos os dias.
Depois cresci, aprendi a ler outras coisas, mesmo as mais antigas, descobri um novo mundo e sobretudo aprendi que a erudição não se ganha com meia dúzia de leituras, visualizações e audições. Humildemente comecei a procurá-la, caminho que continuo a percorrer hoje em dia. Não tenciono, nem consigo, adquiri-la em definitivo, parece-me essa uma tarefa inglória. No entanto quero manter esta vontade de a ir conhecendo aos bocadinhos, de me ir completando, de juntar todas as palavras, sons e gestos e garantir que, afinal, eles ainda contribuem, em larga medida, para a concretização desta enorme alquimia que vale a pena ser vivida!

Galeria do Nunca (19)


Amadeo Sousa Cardoso
Pintura Brut 300 TSF - 1917

Fechar os olhos


E de repente abrimos os olhos e não acreditamos naquilo que o espelho nos devolve.
Olhamos à nossa volta e descobrimos que as coisas em que nos baseávamos não estão nos seus lugares habituais. Estranhamos os dias, a velocidade a que passam, as cores que se vão desmaiando, as voltas que já não conseguimos completar.
Pegamos naquelas mãos pequeninas que fomos aprendendo a conhecer, que nos surgiram dum nada e que se tornaram num tudo enorme.
E acabamos por sorrir…
Porque os momentos certos são aqueles em que temos capacidade para sorrir, para olhar de novo o espelho e perceber que por muito que desconfiemos das imagens nele reflectidas, o que realmente conta é aquilo que os olhos nos mostram quando os sabemos fechar…

quarta-feira, 4 de março de 2009

As calorias do bom gosto


Atribuímos, nos dias que correm, a elegância à(s) magreza(s). A maior parte das vezes a uma magreza excessiva. Provocamos anorexias, que se manifestam no corpo e, sobretudo, nas cabeças de quem não consegue encaixar as devidas proporcionalidades.
A televisão e as revistas, que apelidamos de cor de rosa, mas que nos enchem de tonalidades acinzentadas, dão-nos receitas para a super forma, para as conquistas com que sonhamos mas que, evidente e naturalmente, nunca alcançaremos e dão-nos depois exemplos de vencedores. De vencedores dizem eles, de Cristianos Ronaldos, ou de Lucianas Abreus, que muitos sonham alcançar, mas que ninguém conhece na verdade.
É este um mundo absorto em fogos-fátuos, em quimeras infundadas, em ambições desmedidas porque não têm significado objectivo, porque não traduzem felicidades concretas, mas apenas esboços de sonhos tolos.
Estamos por isso de tal forma imersos nestes conceitos pastilha elástica, que nos esquecemos de lembrar que, mesmo que o bolo seja um assombro de calorias, é nele que está contido todo o gosto bom!
Apetece dizer, tal como faziam os nossos amigos gauleses: “Estes romanos são loucos”!

Galeria do Nunca (18)


Pieter Bruegel
A Torre de Babel - 1563

Tolkien inédito


Apesar de desconfiar que há, de alguma forma, um aproveitamento evidente da notoriedade que o autor conquistou com O Senhor dos Anéis, nomeadamente, e nos dias de hoje, com os filmes que Jackson realizou, não deixa de ser uma excelente noticia o facto de estar a ser preparada a edição de uma obra inédita de J. R. R. Tolkien, The Legend of Sigurd and Gudrun. Escrito ainda antes das obras que lhe granjearam, muito justificadamente, a fama que alcançou, estas linhas nunca tinham sido expostas aos olhares dos leitores, talvez porque a temática, lendas nórdicas, não fosse, em principio, do agrado do chamado grande público. É agora claro, que qualquer inédito de Tolkien será um garantido best-seller. Eu próprio irei comprá-lo, mais que não seja porque a minha tara tolkieniana não me permite que seja de outro modo!

terça-feira, 3 de março de 2009

Blood on the Rooftops


É uma daquelas canções que ouvimos e guardamos na memória por muitos anos. Porque nos toca, porque é bonita, porque tem palavras que, aparentemente não se encaixam, não fazem sentido, mas que depois de as juntarmos várias vezes fazem muito mais sentido que todas as outras, todas aquelas que parecem estar no sitio certo, mas que acabam por dizer apenas o que é evidente, não nos desafiando à descoberta, não nos provocando os sentidos, não nos dando as referências que nos ajudam a descobrir muito para lá do que aquilo que deixam apenas antever.
Esta é uma música clássica, de um classissismo que só os Genesis antigos conseguiram alcançar. É, talvez, a mais Gabrielana música pós-Gabriel.
Começa com um dedilhar de guitarra e continua por aí fora, cheia de um surrealismo contagiante e divertido.
Está no disco de 1977 chamado Wind and Wuthering, aquele que, muito provavelmente, foi o último disco dos Genesis.
As palavras que são estas:

«Dark and grey, an english film, the wednesday play
We always watch the queen on christmas day
Wont you stay?

Though your eyes see shipwrecked sailors youre still dry
The outlooks fine though wales might have some rain
Saved again.

Lets skip the news boy (Ill make some tea)
The arabs and the jews boy (too much for me)
They get me confused boy (puts me off to sleep)
And the thing I hate - oh lord!
Is staying up late, to watch some debate, on some nations fate.

Hypnotised by batman, tarzan, still surprised!
Youve won the west in time to be our guest
Name your prize!

Drop of wine, a glass of beer dear whats the time?
The grime on the tyne is mine all mine all mine
Five past nine.

Blood on the rooftops - venice in the spring
Streets of san francisco - a word from peking
The trouble was started - by a young errol flynn
Better in my day - oh lord!
For when we got bored, wed have a world war, happy but poor

So lets skip the news boy (Ill go make that tea)
Blood on the rooftops (too much for me)
When old mother goose stops - theyre out for 23
Then the rain at lords stopped play
Seems helen of troy has found a new face again»

Badalhoquices


Há boa maneira do Porto, pelo menos daquele Porto brigão, quezilento, rude e sobretudo mal educado, que está associado às pessoas que juram ter um coração de uma só cor, o azul e branco, a senhora Carolina Salgado foi hoje agredida e violentamente insultada por algumas das suas conterrâneas quando saia do tribunal de Vila Nova de Gaia, onde tinha ido depor no julgamento do seu ex mentor e outras coisas que tais, senhor Jorge Nuno da Costa.
Este não deixa de ser um caso de puro fait-divers , mas também não deixa de ser sintomática esta diarreia vernácula e de baixo nível a que os futebóis e seus sucedâneos nos vêm habituando, mesmo vindo de senhoras do norte, mesmo vindo da tal cor, mesmo quando a palavra menos ofensiva a que a senhora Carolina foi sujeita ter sido, badalhoca!
Por outro lado, eles são todos do Porto, eles que se entendam, carago!

Gangsters


No essencial vejo pouca diferença entre o que se passou ontem em Bissau e o que se passava na Chicago dos anos 20!

O Porto-Sporting que me agradou!


Em 1947 o F.C. Porto e o Sporting disputaram um jogo de futebol bem mais discutido do que aquele que teve lugar no passado fim de semana. Mais que não fosse, pela simples presença destas duas figuras que aqui espreitamos. O portista Barata, novo rico com ares de uma superioridade bacoca e vincadamente provinciana e o Anastácio, lisboeta e leão do bairro da Estrela, que faz da sua indomável fé sportinguista, razão suficiente para se dar ares daquilo que não é.
Comédia notável que rememoro aqui, simplesmente porque estes dois clubes se encontraram no último sábado na mesma cidade e, sobretudo, porque António Silva nos deixou há exactamente 39 anos. E eu, que não sou nem azul, nem verde, não consigo deixar de sorrir perante mais esta comédia de costumes, tão ao jeito da filmografia portuguesa dos anos 40.