quinta-feira, 5 de março de 2009

Erudições


Já ia adiantado nos meus teens, quando, por alturas do chamado boom do rock português, ao ouvir um dos muitos discos de uma das novas bandas, me dei conta de uma frase que me ficou continuamente a bater.
Faço das palavras, sons e gestos, a grande alquimia de estar vivo!
Para alguém em estado adiantado de adolescência, com ambições a alguma erudição, ainda que algo ingénua, aquela frase significava uma boa síntese daquilo que eu julgava ser uma espécie de poesia moderna e urbana que devia vingar, por oposição aquilo que os canhenhos que estudava na escola me queriam impingir. À chatice que me vinha da lírica de Camões ou da estopada de um Garrett romântico, havia alguém que era do meu tempo, que fazia música agradável e que, ainda por cima, conseguia dar-me frases que faziam todo o sentido.
Cheguei, por isso, a escrever aquelas palavras na capa escolar que me acompanhava todos os dias.
Depois cresci, aprendi a ler outras coisas, mesmo as mais antigas, descobri um novo mundo e sobretudo aprendi que a erudição não se ganha com meia dúzia de leituras, visualizações e audições. Humildemente comecei a procurá-la, caminho que continuo a percorrer hoje em dia. Não tenciono, nem consigo, adquiri-la em definitivo, parece-me essa uma tarefa inglória. No entanto quero manter esta vontade de a ir conhecendo aos bocadinhos, de me ir completando, de juntar todas as palavras, sons e gestos e garantir que, afinal, eles ainda contribuem, em larga medida, para a concretização desta enorme alquimia que vale a pena ser vivida!

Galeria do Nunca (19)


Amadeo Sousa Cardoso
Pintura Brut 300 TSF - 1917

Fechar os olhos


E de repente abrimos os olhos e não acreditamos naquilo que o espelho nos devolve.
Olhamos à nossa volta e descobrimos que as coisas em que nos baseávamos não estão nos seus lugares habituais. Estranhamos os dias, a velocidade a que passam, as cores que se vão desmaiando, as voltas que já não conseguimos completar.
Pegamos naquelas mãos pequeninas que fomos aprendendo a conhecer, que nos surgiram dum nada e que se tornaram num tudo enorme.
E acabamos por sorrir…
Porque os momentos certos são aqueles em que temos capacidade para sorrir, para olhar de novo o espelho e perceber que por muito que desconfiemos das imagens nele reflectidas, o que realmente conta é aquilo que os olhos nos mostram quando os sabemos fechar…

quarta-feira, 4 de março de 2009

As calorias do bom gosto


Atribuímos, nos dias que correm, a elegância à(s) magreza(s). A maior parte das vezes a uma magreza excessiva. Provocamos anorexias, que se manifestam no corpo e, sobretudo, nas cabeças de quem não consegue encaixar as devidas proporcionalidades.
A televisão e as revistas, que apelidamos de cor de rosa, mas que nos enchem de tonalidades acinzentadas, dão-nos receitas para a super forma, para as conquistas com que sonhamos mas que, evidente e naturalmente, nunca alcançaremos e dão-nos depois exemplos de vencedores. De vencedores dizem eles, de Cristianos Ronaldos, ou de Lucianas Abreus, que muitos sonham alcançar, mas que ninguém conhece na verdade.
É este um mundo absorto em fogos-fátuos, em quimeras infundadas, em ambições desmedidas porque não têm significado objectivo, porque não traduzem felicidades concretas, mas apenas esboços de sonhos tolos.
Estamos por isso de tal forma imersos nestes conceitos pastilha elástica, que nos esquecemos de lembrar que, mesmo que o bolo seja um assombro de calorias, é nele que está contido todo o gosto bom!
Apetece dizer, tal como faziam os nossos amigos gauleses: “Estes romanos são loucos”!

Galeria do Nunca (18)


Pieter Bruegel
A Torre de Babel - 1563

Tolkien inédito


Apesar de desconfiar que há, de alguma forma, um aproveitamento evidente da notoriedade que o autor conquistou com O Senhor dos Anéis, nomeadamente, e nos dias de hoje, com os filmes que Jackson realizou, não deixa de ser uma excelente noticia o facto de estar a ser preparada a edição de uma obra inédita de J. R. R. Tolkien, The Legend of Sigurd and Gudrun. Escrito ainda antes das obras que lhe granjearam, muito justificadamente, a fama que alcançou, estas linhas nunca tinham sido expostas aos olhares dos leitores, talvez porque a temática, lendas nórdicas, não fosse, em principio, do agrado do chamado grande público. É agora claro, que qualquer inédito de Tolkien será um garantido best-seller. Eu próprio irei comprá-lo, mais que não seja porque a minha tara tolkieniana não me permite que seja de outro modo!

terça-feira, 3 de março de 2009

Blood on the Rooftops


É uma daquelas canções que ouvimos e guardamos na memória por muitos anos. Porque nos toca, porque é bonita, porque tem palavras que, aparentemente não se encaixam, não fazem sentido, mas que depois de as juntarmos várias vezes fazem muito mais sentido que todas as outras, todas aquelas que parecem estar no sitio certo, mas que acabam por dizer apenas o que é evidente, não nos desafiando à descoberta, não nos provocando os sentidos, não nos dando as referências que nos ajudam a descobrir muito para lá do que aquilo que deixam apenas antever.
Esta é uma música clássica, de um classissismo que só os Genesis antigos conseguiram alcançar. É, talvez, a mais Gabrielana música pós-Gabriel.
Começa com um dedilhar de guitarra e continua por aí fora, cheia de um surrealismo contagiante e divertido.
Está no disco de 1977 chamado Wind and Wuthering, aquele que, muito provavelmente, foi o último disco dos Genesis.
As palavras que são estas:

«Dark and grey, an english film, the wednesday play
We always watch the queen on christmas day
Wont you stay?

Though your eyes see shipwrecked sailors youre still dry
The outlooks fine though wales might have some rain
Saved again.

Lets skip the news boy (Ill make some tea)
The arabs and the jews boy (too much for me)
They get me confused boy (puts me off to sleep)
And the thing I hate - oh lord!
Is staying up late, to watch some debate, on some nations fate.

Hypnotised by batman, tarzan, still surprised!
Youve won the west in time to be our guest
Name your prize!

Drop of wine, a glass of beer dear whats the time?
The grime on the tyne is mine all mine all mine
Five past nine.

Blood on the rooftops - venice in the spring
Streets of san francisco - a word from peking
The trouble was started - by a young errol flynn
Better in my day - oh lord!
For when we got bored, wed have a world war, happy but poor

So lets skip the news boy (Ill go make that tea)
Blood on the rooftops (too much for me)
When old mother goose stops - theyre out for 23
Then the rain at lords stopped play
Seems helen of troy has found a new face again»

Badalhoquices


Há boa maneira do Porto, pelo menos daquele Porto brigão, quezilento, rude e sobretudo mal educado, que está associado às pessoas que juram ter um coração de uma só cor, o azul e branco, a senhora Carolina Salgado foi hoje agredida e violentamente insultada por algumas das suas conterrâneas quando saia do tribunal de Vila Nova de Gaia, onde tinha ido depor no julgamento do seu ex mentor e outras coisas que tais, senhor Jorge Nuno da Costa.
Este não deixa de ser um caso de puro fait-divers , mas também não deixa de ser sintomática esta diarreia vernácula e de baixo nível a que os futebóis e seus sucedâneos nos vêm habituando, mesmo vindo de senhoras do norte, mesmo vindo da tal cor, mesmo quando a palavra menos ofensiva a que a senhora Carolina foi sujeita ter sido, badalhoca!
Por outro lado, eles são todos do Porto, eles que se entendam, carago!

Gangsters


No essencial vejo pouca diferença entre o que se passou ontem em Bissau e o que se passava na Chicago dos anos 20!

O Porto-Sporting que me agradou!


Em 1947 o F.C. Porto e o Sporting disputaram um jogo de futebol bem mais discutido do que aquele que teve lugar no passado fim de semana. Mais que não fosse, pela simples presença destas duas figuras que aqui espreitamos. O portista Barata, novo rico com ares de uma superioridade bacoca e vincadamente provinciana e o Anastácio, lisboeta e leão do bairro da Estrela, que faz da sua indomável fé sportinguista, razão suficiente para se dar ares daquilo que não é.
Comédia notável que rememoro aqui, simplesmente porque estes dois clubes se encontraram no último sábado na mesma cidade e, sobretudo, porque António Silva nos deixou há exactamente 39 anos. E eu, que não sou nem azul, nem verde, não consigo deixar de sorrir perante mais esta comédia de costumes, tão ao jeito da filmografia portuguesa dos anos 40.

Georges Remi


Passam hoje 26 anos sobre o dia em que Hergé nos deixou.
Mas o que ele nos deixou verdadeiramente, foi um extraordinário mundo de aventuras, de companheirismos e solidariedades. Um mundo colorido onde os bons vencem sempre, embora lhes sejam exigidos sacrifícios; um mundo encantatório, mas onde os heróis também têm dúvidas, defeitos, problemas.
Hergé foi-se há 26 anos, mas a sua presença é, ainda hoje, uma permanência constante, porque a sua obra é imortal e, sobretudo, porque nela reside um dos valores mais consistentes para uma humanidade mais feliz, a amizade sincera!

Galeria do Nunca (17)


Andy Warhol
Hergé (detalhe) - 1979

segunda-feira, 2 de março de 2009

Vida em Marte? Eu acredito que sim!


Tenho por hábito dizer que, em termos musicais, David Bowie já inventou tudo!
Tenho também plena consciência de que isso pode não ser verdade!
Mas gosto de acreditar que sim!
E mesmo que me digam que não, o certo é que, se escutarmos com atenção, acaba mesmo por ser verdade! Verdade, verdadinha!
Eu acredito que sim!
Como também acredito que há vida em Marte!


«(...)Sailors fighting in the dance hall
Oh man! Look at those cavemen go
It's the freakiest show
Take a look at the Lawman
Beating up the wrong guy
Oh man! Wonder if he'll ever know
He's in the best selling show
Is there life on Mars?»

Uma branca...


Pois é! Há dias em que esta vontade de escrever não é correspondida por quem me comanda a inspiração. Hoje é um desses dias!
Por isso e porque meti na cabeça que não podia deixar de escrever, deixo aqui expressa esta minha lacuna passageira (assim o espero)!
Uma página em branco numa máquina de escrever!
A angústia perante a página em branco???
Não! A angústia não é isto, isto é apenas uma branca!!!

Galeria do Nunca (16)


Edvard Munch
O Grito - 1893