segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Cameos


Geralmente gosto de ver, ouvir e ler, referências inesperadas dentro de livros, filmes e músicas.
Gosto, sobretudo, de perceber essas referências quando não são evidentes, quando há uma descoberta repentina, fortuita. Como, quando numa música original se ouvem, discretos, alguns acordes de uma música muito conhecida, ou quando numa obra literária nos espreita, de um qualquer canto remoto, uma personagem que vive num outro sitio, ou quando um autor faz reviver uma sua personagem em várias das suas histórias, criando assim uma continuidade referencial na totalidade da sua obra, ou ainda quando num filme o seu realizador nos surge numa imagem, de rompante, de fugida, piscando-nos o olho, deixando-nos como que uma espécie de marca de água, impressa a cores e em movimento.
São momentos que nos remetem para a história das imagens, sons e palavras, para memórias que queremos manter vivas, para momentos que nos acordam quando nos sentimos adormecer, são despertadores de mentes, são, se quisermos, sorrisos que nos acalentam o espírito, desafiadores de reminiscências e propiciadores de ideias.
Eu gosto desta espécie de jogo, faz-me lembrar, sentir que consigo reconhecer aquilo que me vai formando enquanto leitor, espectador, ouvinte, aquilo que me vai enchendo de conhecimentos e lembranças que, se mais não significassem, quereriam sempre dizer que estou vivo e que tenho memória.

Galeria do Nunca (11)


Vieira da Silva
A Poesia Está na Rua - 1974

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

We Try Harder ?


Este é apenas uma memória muito esparsa. Sei que ficava ali pela Av. Duque de Ávila, junto ao Arco do Cego, no sítio onde hoje, julgo eu, está instalado um Pingo Doce. Que me recorde, fui lá apenas uma vez, ver um filme que, na altura, estava muito em voga, pelo menos junto de uma faixa infanto/juvenil que se divertia com cenas que envolviam muita pancadaria. Chamava-se Trinitá O Cowboy Insolente e era uma espécie de Western/Spaghetti, onde pontificavam dois italianos com nomes americanizados, Terence Hill e Bud Spencer.
Não me lembro de mais nada daquele lugar, nem de como era a sala, nem as cadeiras, nem a envolvente. Lembro-me do nome, Avis, o que, por associação de ideias um tanto tola e forçada, me levanta uma questão, será que em Lisboa we try harder?
Bom fim de semana!

Arlecchino


Tal como Veneza, o seu Carnaval e sobretudo a sua magnificência, algo decadente, mas sempre misteriosa e eternamente bela, também esta figura enigmática me tem fascinado.
E não só a mim.

Os Genesis deixaram-lhe esta canção:

«(…)There was once a harvest in this land.
Reap from the turquoise sky, harlequin, harlequin,
Dancing round, three children fill the glade,
Theirs was the laughter in the winding stream, and in between.
Close your door, the picture fades again
From the flames in the firelight.

All, always the same,
But there appears in the shades of dawning,
Though your eyes are dim,
All of the pieces in the sky.

All, all is not lost,
And light appears in the shades of dawning
When your eyes can see»


E Agatha Christie ofereceu-lhe (mais) esta aura:

«Harley Quinn é o “homem misterioso”. Surge do nada e dilui-se na paisagem sem que alguém se aperceba. Quinn é alto, magro e moreno, e isso é tudo quanto se sabe sobre as suas características físicas. Sobre gostos pessoais e hábitos o desconhecimento é total.
As suas aparições estão por vezes associadas a fenómenos luminosos locais, que parecem fazer com que os seus fatos brilhem de forma multicolor como o fato de Arlequim. Agatha Christie afirmava que Quinn era a sua personagem favorita. »

Carnavais


Não sou grande adepto da época carnavalesca. No entanto, este Carnaval, tal como esta cidade, pela sua aura de mistério e fascínio, seduzem-me particularmente!

Gabriel & Banks


Foi em Charterhouse que tudo começou. Quando, pelo ano de 1966, estes dois jovens se conheceram e decidiram que iam criar das mais bonitas composições musicais que o mundo iria conhecer!
Hoje, eu, como decerto vários milhões de outras pessoas em todo o planeta, estamos agradecidos por isso!
De Nursery Cryme, For Absent Friends, esperando que estes nossos amigos possam, um destes dias, voltar a encantar-nos:

«Sunday at six when they close both the gates
a windowed pair,
still sitting there,
Wonder if they're late for church
and its cold so they fasten their coats
and cross the grass, they're always last.

Passing by the padlocked swings,
the roundabout still turning,
ahead they see a small girl
on her way home with a pram.

Inside the archway
the priest greets them with a courteous nod.
He's close to god.
Looking back at days of four instead of two.
Years seem so few.
Heads bent in prayer
for friends not there.

Leaving twopence on the plate,
they hurry down the path and out the gate
and wait to board the bus
that ambles down the street.»

Galeria do Nunca (10)


Pablo Picasso
Guernica - 1937

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

451 º


Ray Bradbury e François Truffaut quiseram mostrar-nos como seria. Como num mundo semelhante ao nosso se queimariam as ideias, se destruiria a beleza, se acorrentava a imaginação. Os homens, manietados por forças superiores, não olham a meios para as venerarem cegamente. Felizmente que há sempre alguém que tem dúvidas, há sempre que tenta pensar, há sempre alguém que, mesmo a medo, se propõe a reagir. Há sempre alguém que consegue dizer NÃO! Mesmo que para isso se condene a penas mais perversas que uma qualquer imaginação delirante consiga engendrar. Primeiro que tudo a sua própria consciência! Depois os outros, os ditos e mexericos, os olhares penetrantes que lhe vão tentando destruir as defesas. No fim de tudo saberá que a sua recompensa nunca lhe será entregue, mas terá plena consciência de que o fogo, na verdade, não regenera, apenas destrói aquilo que nos é caro, pelo que é absolutamente necessário mantê-lo longe da corrente por onde o essencial se vai escoando! A não ser que o mundo, qual fénix, se consiga recuperar e nele só sobrarem aqueles que, ingénua mas decididamente, peguem na palavra e a tornem verdade!

Back on the chain gang...again


Clique aqui para ver.
Magnifico!!!

"devenir immortel…et puis mourir. "


Jean-Luc Godard é um dos cineastas mais justamente polémicos, não só do cinema francês, mas, naturalmente, do cinema mundial. Associado à Nouvelle Vague, trouxe-nos uma nova forma de fazer e ver cinema. De entre muitos dos seus filmes mais conhecidos e emblemáticos, permito-me destacar o primeiro, À Bout de Souffle, em português O Acossado.
Este filme foi realizado a preto e branco, com um guião feito à medida que se ia filmando, a partir de histórias imaginadas por outro grande realizador francês, François Truffaut. Os seus protagonistas foram Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg. É um filme em andamento constante. De perder o fôlego. É, sobretudo, um filme perfeitamente europeu. Nota-se o pulsar do velho continente, de uma França moderna, mas dona de um rasto cultural de muitos anos! Ressalta aqui uma forte reacção aquilo que a tirania de Hollywwod vinha impondo.
É exactamente isso que Neil Hannon e os seus Divine Comedy nos fazem sentir quando ouvimos a canção When The Lights Go Out All Over Europe:

«(...)And when she asks of his ambition,
Jean-Pierre replies, "My mission
Is to become eternal and to die..."

Heaven knows the reason why...

When the lights go out all over Europe,
I forget about old Hollywood,
'Cos Doris Day couldn’t make me cheer up
Quite the way those French girls always could(...)»


Talvez seja esta a mais importante missão do cinema europeu : "devenir immortel…et puis mourir. "

Lado A e Lado B


Revejo hoje, na revista Visão, que os vinis voltam a estar na moda. É uma moda que se tem vindo a acentuar nos últimos tempos. Nesta notícia ressalta, sobretudo, a quantidade assinalável de lojas que se dedicam, em exclusivo, à venda destes discos. São recuperados os antigos e são editados novos exemplares. Bandas como os The Gift vão fazer, ou já fizeram, a edição de toda a sua discografia neste suporte. Há músicos, como Elvis Costello, que, no seu último trabalho, optou por só editar em vinil e digital. Surgem novos gira-discos, alguns até com ligação directa a leitores de mp3 ou 4. Colocam-se à venda kits de limpeza, com os líquidos próprios, com as escovinhas para as agulhas e o veludo para os discos.
Tudo isto me causa uma certa surpresa, não pensei que o vinil viesse a ressurgir. De qualquer forma, creio que se destina a um nicho muito reduzido de mercado, a certos saudosistas, ou a jovens que, de alguma forma, querem marcar uma certa diferença.
Eu, por mim, nunca deixei de ouvir os meus antigos vinis. Ainda tenho a minha escova, o meu veludo, o meu gira-discos e sobretudo, o grande gozo de conhecer as canções, que sempre me acompanharam, pela sua localização no disco. Lado A, ou lado B!

Galeria do Nunca (9)


Edgar Degas
L'absinthe - 1876

Da criação de trogloditas


No DN:

«Ministério Público investiga queixas do Colégio Militar
(...)O caso dos cinco alunos do Colégio Militar internados por excesso de treino físico não é único. Neste momento, existem dois processos em investigação no Ministério Público (MP) e, pelo menos, outro está a ser julgado em tribunal. Tudo por alegados maus tratos por parte de estudantes mais velhos dentro da instituição.(...)»

Não é violência, dizem eles. É disciplina, dizem eles!
Esta necessidade, inominável, de fazer passar a ideia de uma masculinidade acéfala, que vigora entre as mentalidades tacanhas e parolas dos nossos jovens aspirantes a militares (e em muitos outros também), que procuram provar a si próprios e, sobretudo aos seus pares, que são fortes e invencíveis, parece-me coisa própria do passado, de um passado em que a condição humana não era, minimamente, respeitada, em que ser homem era sinónimo de não ter sensibilidade, de não verter uma lágrima, de não saber que ser pessoa é um conjunto de várias componentes que, todas juntas, criam o homem e a mulher, a pessoa!
Isto faz com que suba, de novo, à tona a ideia que já possuo há muito tempo, a de que o exército português e seus sucedâneos não servem, exactamente, para nada. A não ser que se considere a criação de trogloditas como uma prioridade nacional!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

The Stolen Child

«Where dips the rocky highland
Of Sleuth Wood in the lake,
There lies a leafy island
Whereflapping herons wake
The drowsy water rats;
There we've hid our faery vats,
Full of berrys
And of reddest stolen cherries.
Come away, O human child!
To the waters and the wild
With a faery, hand in hand,
For the world's more full of weeping than you can understand.
(…)
Away with us he's going,
The solemn-eyed:
He'll hear no more the lowing
Of the calves on the warm hillside
Or the kettle on the hob
Sing peace into his breast,
Or see the brown mice bob
Round and round the oatmeal chest.
For he comes, the human child,
To the waters and the wild
With a faery, hand in hand,
For the world's more full of weeping than he can understand»


Excerto de um poema de W.B.Yeats chamado The Stolen Child.
Por ele, talvez se perceba porque podem as crianças ser atraídas pelo mundo encantado das fadas. Pelo menos algumas crianças. Pelo menos aquelas crianças que, mesmo já tendo idade para ter juízo, continuam a acreditar que há um outro mundo, melhor do que este que, ainda, não conseguem compreender!



Nota: Existe uma versão cantada deste poema, interpretada pelos Waterboys, com a participação vocal, soberba, do actor irlandês Tomas MacEoin, incluída no seu álbum The Fisherman’s Blues

Galeria do Nunca (8)


Keith Haring
Nous, Tintin - 1987